Giovani Pico de la Mirandola
Coelho De Moraes
O que seriam atores? Loucos sob
controle?
A psicopatologia tem a ver com a descoberta
de que nossa experiência psíquica é sempre sofrida. São durezas. São ataques
repentinos. São formas de subtração. São formas de reconstrução.
Mas a construção da personagem é parto
que se faz a cada ensaio. Os detalhes do corpo. Os detalhes da fala e da voz.
Os detalhes das formas de pensar.
Tem a ver com a (re) construção de visão
da dor de cada um; singularidade ligada à história do desejo e da frustração do
desejo de cada um. E sobre o palco é o que mais se assenta. Não reafirmaria a
historia do desejo, mas, a pratica histórica de apresentação do desejo. Em
seguida sua frustração, favorecendo a historia que se conta. E mais contemporaneamente
a possibilidade de nada se resolver e vermos a peça terminar com uma incógnita.
Desejo suspenso. Frustração. Retorno á realidade.
Em termos de coletivo de trabalhos
gerais de equipe teatral tem a ver com a aceitação criativa que o outro propõe,
muitas vezes diferente da referência que o diretor deseja; o FIXO em teatro não
existe; existe sempre o DINÂMICO de onde deriva a palavra DRAMA (aquilo que
toma movimento); existe a atitude não resignada, mas respeitosa, atitude não
submissa desta experiência, que no fim, é a experiência de sofrimento e dor
(não a dor que nos leva à pena, mas, sim, a dor da parturição, a dor de dar à
luz, dentro das devidas proporções que
só as mulheres sabem como é).
Essa dor, que é uma dor expositiva,
dar à luz, expor no palco, está ligada à
história de cada um e tem que se mesclar com a história de todos; um grupo é um
fenômeno; um grupo de artes cênicas pode passar por processos, mas o coletivo
bem equilibrado é fenômeno.
A análise poderá ser um espaço de
experiência e de criação de si; a análise em relações humana é coisa
importante; análise em teatro é terapia coletiva obrigatória, onde se aprende com a própria dor e se aprende
a desistir de sofrer, pois caso contrário não haverá obra para encenar.
Atrizes e atores estão propensos ao
sofrimento.
Uma das condições, além da vaidade, da
autopromoção, da vitrine, do orgulho de se mostrar, de ser contador de
historias, é a de que se prevê um sofrimento a cada noite de espetáculo (com ou
sem Stanislaviski – ponha onde quiser seus ipsilones).
A atriz e ator estarão prontos para
doar pedaços da alma.
Questão
esta que está inserida nos canais da livre escolha. Livre escolha da alma, subir aos patamares superiores do palco
e expor noticias de todos os tempos com variadas roupagens e interpretações:
atriz e ator tornando-se divinos, passo a passado com os deuses do teatro.
Se Pico de la Mirandola opera com a retomada da idéia do ser humano
como microcosmos do universo, sabemos dizer que o ator e atriz são deuses do
espaço entre de palco que se lhes é reservado a cada apresentação.
A questão já representação, (re)
apresentação dos fatos é coisa já presente na mitologia das mais diversas
culturas da antiguidade. Se tal idéia implicava a definição do ser humano como
um produto composto das coisas do mundo, (através da persona o mundano se abate
sobre a Terra), em Pico de la
Mirandola ressurge um conceito que nos faz pensar em outra
direção: acentuar sua diferença essencial, que se dá pelo poder
inerente ao espírito artístico, de poder
assemelhar-se a qualquer elemento, graça, força, imagem, idéia, segundo sua própria vontade, sem ter, no
entanto, forma definitiva em nenhum deles, pois a natureza do artista define-se
por seu movimento e por sua insubstancialidade.
Fala Pico:
“A ele foi dado possuir o que
escolhesse; ser o que quisesse. Os animais, desde o nascer, já
trazem em si, o que irão possuir depois. Os espíritos
superiores, a partir do início, ou logo depois, já eram aquilo que
pela eternidade seriam. No ser humano, todavia, quando
este estava por desabrochar, o Pai (os
deuses) infundiu todo tipo de sementes,
de tal sorte que tivesse toda e qualquer variedade de
vida.”
Ou seja, está no ser humano a
multiplicidade de representações. O ser humano como espelho múltiplo. E isso
não é feito sem dores.
Talvez não exista uma concepção mais extravagante da liberdade
humana. Self flexível, moldável, alterável, que todos praticam no dia a dia das
ruas , que atriz e ator escolhem praticar no dia a dia dos palcos.
Concedem, os deuses do teatro, ó Dioniso, ó
Apolo, ao ser humano a capacidade de
moldar-se de acordo com sua vontade, transformando-se em besta, planta ou anjo.
Esta proposta de Pico rompia com a concepção
escolástica (ver Tomás de Aquino), segundo a qual, o SELF é
fixo, e, inalterável, dado por sua posição no cosmos; sem contar a tradição agostiniana (patrística), que
enfatiza a intervenção da Graça divina, na salvação da natureza humana
corrompida pelo pecado, predestinada ao inferno.
Mas os deuses dizem que ninguém está
perdido nem vai ao inferno que é região que não existe pois teríamos que
aceitar um lugar onde não se dá a presença divina. É que os humanos usam muita
máscara e se perdem nelas. Os artistas de teatro estão ai para que, usando
máscaras, sofram ao removê-las nas peças e escancarar a verdadeira face humana.

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