sábado, 12 de novembro de 2011

Cultura dos editais O remédio amargo dos artistas



almandrade telescopio.spaceblog.com.br
O artista que passa o tempo recluso na solidão do atelier, trabalhando, desenvolvendo sua experiência estética, como um operário da linguagem e do pensamento, está em extinção. É coisa de museu. Ou melhor, é raridade nos museus de arte, hoje em dia, que estão deixando de ser instituições de referência da memória para servir de cenários para legitimação do espetáculo. Às vezes com míseros recursos que ficamos até sem saber, quando deparamos com baldes e bacias nessas instituições, se são para amparar a pingueira do telhado ou se trata de uma instalação, contemplada por um edital para aquisição de obras contemporâneas. O que interessa na política cultural nem sempre é a arte e a cultura, e sim, o glamour. Em nome da arte contemporânea faz-se qualquer coisa que dê visibilidade.
As políticas públicas foram relegadas às leis de incentivo à cultura e aos editais públicos. Nunca se fez tanto editais neste País, como atualmente, para no fim fazer da arte um suplemento cultural, o bolo da noiva na festa de casamento. Na fala do filósofo alemão Theodor Adorno: “As obras de arte que se apresentam sem resíduo à reflexão e ao pensamento não são obras de arte”. Do ponto de vista da reflexão, do pensamento e do conhecimento, a cultura não é prioridade. Na política dos museus, o objeto já não é mais o museu que se multiplicou, juntamente com os chamados centros culturais, nos últimos anos. Com vaidade de supermercado, na maioria das vezes eles disponibilizam produtos perecíveis, novidades com prazo de validade, para estimular o consumo vetor de aquecimento da economia. A qualificação ficou no papel, na publicidade do concurso.
Esses editais que bancam a cultura são iniciativas que vem ganhando força. Mostram ser um processo de seleção com regras claras para administrar o repasse de recursos, muito bem vendido na mídia, como um método de democratizar o acesso e a distribuição de recursos para as práticas culturais. Mas nem tão democrático assim. Podem ser um instrumento possível e eficiente em certos casos, mas não é a solução, é possível funcionar também, como escudo para dissimular responsabilidades pela produção, preservação e segurança do patrimônio cultural. Considerando-se ainda a contratação de consultorias, funcionários, despesas de divulgação, inscrição, o trabalho árduo e apressado de seleção , é um custo considerável, em último caso, gera serviços e renda.
O artista contemporâneo deixa de ser artista para ser proponente, empresário cultural, captador de recursos, um especialista na área de elaboração de projeto, com conhecimentos indispensáveis de processo público e interpretação de leis. Dedica grande parte de seu tempo nesse processo burocrático de elaboração e execução de projeto, prestação de contas, contaminado pela lógica do marketing, incompatível para o artista que aposta na arte como uma opção de vida e meio de conhecimento que exige uma dedicação exclusiva. Ou então, ele fica à mercê de uma produtora cultural, para quem essa política de editais e fomento à cultura é um excelente negócio.
Uma coisa é preocupante, se essa política de editais se estender até a sucateada área da saúde. Imaginem uma seleção pública para pacientes do Sistema Único de Saúde que necessitam de procedimentos médicos, os que não forem democraticamente contemplados, teriam que apelar para a providência divina, já engarrafada com a demanda de tantos pedidos. Nem é bom imaginar. Que esta praga fique restrita nos limites da esfera cultural, pelo menos é uma torneira que sempre se abre para atender parte de uma superpopulação de artistas / proponentes pedintes.
O artista, cada vez mais, é um técnico passivo com direito a diploma de bem comportado em preenchimento de formulário, e seu produto relegado ao controle dos burocratas do Estado e aos executivos de marketing das grandes empresas. Se o projeto é bem apresentado com boa justificativa de gastos e retornos, o produto a ser patrocinado ou financiado, mediano, não importa. O que importa é a formatação, a objetividade do orçamento, a clareza das etapas e a visibilidade, o produto final é o acessório do projeto. Claro, existem as exceções.
Almandrade  / Artista plástico, poeta e arquiteto

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

CALIGARI E SEU CÃO ANDALUZ


TPM EM 2001 ENCENANDO DEUS DE WOODY ALLEN

Coelho de Moraes

O CÃO ANDALUZ, de Buñuel, é marco da cinematografia, finca pilares e aponta possibilidades na arte. Obra de 1928. Antes disso, em 20, DAS CABINET, de Wiene mostrava experimentalismos radicais. Vemos nos dois as marcas da psicanálise, do onírico, da poética expostos na película.
Tensão – O olho cortado, Cesare saindo do armário, formigas que brotam da mão da personagem, o mago misterioso na feira apresentam tensão, obedecendo porém a valores diferentes. Alguns deles já eram tradição na literatura romântica.  DAS CABINET carrega a historia de maneira direta e linear comprometendo-se a ‘começar, ter meio e finalizar’, mesmo que o final seja surpreendente. O CÃO, por outro lado, mostra tensão na cena em si e por si, pois a edição de cenas com episódios estranhos, diferentes, e oriundos do inconsciente não se preocupam com a história cabível ao modo SydFeldiano de contar historias em hollywood.
Realismo – DAS CABINET é obra de clara inspiração expressionista e os mestres alemães pontificavam na retomada da arte cinematográfica como instrumento de estímulo da fantasia, além da normal ‘contação’ de histórias. Pessoalmente não conheço um filme alemão que se assemelhe ao CÃO em termos de simbologia, de sinais críticos, e liberdade de expressão. A história de DAS CABINET é imagem de uma realidade sombria que rola na cabeça dos pacientes do asilo onde todas as personagens vivem e interagem. Nada mais pé no chão do que a doença que remete a ao mundano viver; resolve-se no final. No CÃO ANDALUZ ancora-se a realidade na existência do casal que dá linha à pipa de Buñuel, além do fato de que as locações são naturais em ruas e espaços tradicionais.
Experimentalismo – A história do DAS CABINET é projetada sobre cenários alterados que nos remete à distorção da consciência dos pacientes do asilo. Dessa forma tais cenários são realistas para os pacientes mas foram criados pelo autor com intuito de mostrar a sua visão do que seria a mente alterada.  Empírico. Wiene propôs: temos a visão normal ou ortodoxa do mundo e aquela visão, em cenários fora de prumo, seriam características das mentes que saem do campo da normalidade. Hoje nos acostumamos com qualquer distorção. Naquela época de entre-guerras, com poderio militar à sua porta, batalhas em potencial, Jung palpitando sobre a síndrome de Odin, a tensão estava, literalmente, no ar. Como Franco ainda não estava no poder podemos aquilatar que Buñuel e seu louco amigo de Cadaqués, o Salvador, criaram sem limites obedecendo as regras (ops) do manifesto surrealista.
Naturalismo – A tela grande, sucedâneo de útero e noite sonhadora, envolve o espectador; vira janela para o inconsciente; caminho que o cinema buscou e obteve, o escuro é sinal de ‘interior da mente’ e se conjuga com o fato de que as imagens podem gerar o fado, investindo assim no campo dos sonhos;   além disso tem o poder coletivo de manifestação e auto/sugestão que pauta Jung no caso do inconsciente das massas. O caminho estava aberto para o inconsciente por força freudiana;  o cinema saia do documentarismo de Lumière para ganhar repercussão real ou metafórica em função daquilo tudo que já ia nas artes plásticas, no teatro e na música, em termos de captação da realidade imediata.
Em João Luiz o projeto cinematográfico  uniu entretenimento e indústria.  O cinema, tão complexo e múltiplo, pode muito bem ser comercial e apresentar técnica refinada. Pode, através de pequenos signos e poucos segundos, mudar a leitura da historia, como é bem exemplo ‘Blade Runner’ e o origami do unicórnio que prova, em 40 segundos na segunda versão, que o policial Deckard é replicante também. Um objeto real remetendo ao onírico.
Buñuel e Wiene, em suas obras, não estariam lançando cartas ao futuro como Villa fez em suas obras musicais. Os novos códigos esclareceriam o teor das cartas? Ou seriam experimentações em si, ali terminadas para testar uma ideia e partir para outra?  As duas obras seriam mais acessíveis se estivessem em cores com interpretação via Actor Studios e distribuição Miramax?
Acredito que reler Buñuel seria inventar outra obra. Releitura de DAS CABINET se fazem às dúzias. Mas em qualquer das produções há alguma  ideologia. Vemos em Buñuel a ideologia de que tudo é livre e possível. Sonhe e será. Nada deve ser submetido à forma ou regra. Nada deve ser dependente de controle e, o autor tem que se munir da liberdade de critica e liberdade de expressão, apesar dos dogmas.
Em DAS CABINET vemos que aquilo tudo que se mostra livre é violento, descontrolado, e deve ser punido. Cesare e seu amor é doentio. No entanto, no final, o sonho e as distorções, voltamos à realidade medíocre,  não passavam de delírios de loucos. Só mesmo os loucos (artistas e criadores?) podem querer a liberdade e o aleatório. E se reserva ao comum controlador punir quem sair dos trilhos.

MODA E FIGURINO EM CALDAS


Chamada de PROCURANDO LUCAS, treiler

Coelho De Moraes

Dario Caldas afirma que os estilistas são antenas aguçadas, mas logo de antemão, sou obrigado a ser contrário a essa idéia. Artistas são antenas, nem sei se aguçadas. Estilistas antenam seu próprio mundo e a estrutura industrial que comporta:  há estilismos enquanto houver capital.  Afirmo, também,  que, antes de antenar,  estilistas forjam  desejos, mudanças e perspectiva que nunca existiram. Basta ler DAS KAPITAL onde o pensamento marxista explica a ação do fetichismo e da produção do desnecessário (feitiço) que mesmeriza o consumidor até esgotá-lo. O consumidor é a vítima elogiada.
Lidam com a estética: é inequívoco, bem como os publicitários e os pastores evangélicos, preocupados com sutilezas mas fundamentados no sensível (carnevale) do ser humano... longe do ideal platônico. Trabalham com elementos do quotidiano e em resumo ou redução da moda: a  indumentária exteriorizará idéias e atitudes apenas sob observação ultra/romântica manipulada pela mídia. Jeans é fardamento de trabalhador de estrada de ferro. Em manipulação virou atitude juvenil de liberdade. Na China todos usavam a mesma roupa na Revolução Industrial. E o mundo Ocidental reclamava.  No ocidente todos usam a mesma roupa na Dominação Cultural: o Jeans e é IN.  Moda? Atitude? Imposição? Bucha de canhão?
 A roupa que nos cobre, nos cobre para evitar o frio, a nudez (que hoje é ilegal); a maioria dos escritos de camisetas (as palavras de ordem e emblemas) são incompreensíveis a seres humanos por usarem idioma alienígena. Ostentam, os consumidores,  aquilo que o dinheiro lhes permite comprar, muita vez, arremedo do original que aparece na TV; roupa emblemática forma o exército de seguidores do ícone ‘artístico’ recém construído.
Como juntar esse tema de figurinismo e moda com a fragmentação. O próprio segmentar do curso é um reflexo da fragmentação. Mas vejamos os exemplos:
Giacomo Balla – movimento, gestual, velocidade, fragmentação da luz, das imagens pintadas; destruir a imagem sem torná-la completamente abstrata, mas, sabidamente longe de seu natural. As formas, a luz (que sugere dinamismo) e o cromatismo (outra faceta do movimento). Desenhista, contatou impressionistas e neo-impressionistas (fragmentadores contumazes). Assinou o Manifesto Técnico da Pintura Futurista. Depois retornou ao realismo,  escultura e cenografia.
Recurso para representar o dinamismo: simultaneidade, desintegração, repetição.
Idéia:  o observador deve captar, de uma só vez, as sequências do movimento.
Madeleine Vionnet -  Estilista, usava modelos em bonecas, depois  para a escala humana. Corte e drapeado. Muito mais pano para esculpir a roupa. Acabou com o uso do espartilho. Vionnet utilizava tecidos incomuns para a época e lugar. O estilo se tornou atemporal. Mas importa relevar que rompe com o modo de fazer roupa do século 19 e propõe nova linguagem e essa é sua maior contribuição. Romper é fragmentar.
Alceu Penna, mineiro, da arquitetura às Belas Artes. Desenhista, técnica para construir com os fragmentos de rabiscos; rápido, traço ágil, desenhava menus, cartazes, cenários, figurinos, decorações e fantasias, detalhava texturas e tramas dos tecidos.  Ilustrou livros, principalmente, infantis.  Nas revistas abordava temas mundanos, políticos, cinematográficos, esportivos. Foi referência: Referência da moda a ser copiada; difundia modelos em voga, - o que demonstra que a publicidade e o jornalismo ditam a pauta sob a ordem pagante. Jabaculês. Vejo pauta  que promova venda, seja ela qual for.   Referência de sugestões (mesmerismo, sugestão, atitude e atividade subliminar tentando alcançar os fragmentos da mente que se constrói e ali montar uma ‘verdade’, um ‘objeto de desejo’). Frases e atitudes como os bordões dos comediantes de TV, criando modismos forçados,  sem qualquer raiz popular, parecendo ser do povo.
Seria, Alceu Penna, perceptível sem a mídia? Quantos Alceus há por ai já sem mídia?
Christian Lacroix, estilista, década de 80, século xx. Simplicidade e  minimalismo. Cores vivas, estampas vibrantes, bordados elaborados, misturas de tecidos, silhuetas volumosas trouxeram fôlego à indústria da moda, - e é interessante notar o viés obrigatório entre essas Casas e a indústria que comanda. A indústria construirá realidades inexistentes, não naturais, modus viviendi obrigatório. Para atingir o público de classe não abastada surge o resumo plug and play da moda:  o Prète-a-Porter. Moda para homem e mulher. Perfume. E tome euro.
Uma exposição da obra de Lacroix quer demonstrar que o figurinismo e arte têm o mesmo sabor. Mas isso me parece vender Picasso às dúzias copiados na gráfica da esquina. Ou seja, usando toda a vertente de mídia e de trabalho de alta mídia para que a indústria pudesse auferir os dividendos dos investimentos aplicados. Não fosse assim por que fazer essas roupas se Van Gogh, notório fragmentador... bem deixa para lá... deixemos o irmão a comprar seu único quadro e voltemos à indústria.
Luxo, fantasia, audácia são palavras heróicas. Representam mesmo a obra de Lacroix ou serão palavras que dinamizam a venda?
O mundo é fragmentado. Aquilo que nos parece inteiro é formado de pedaços. E de pedaços construímos os relativamente inteiros. Em qualquer vertente de arte ou indústria.