ripado de http://cinezezelippi.wordpress.com/zeze-lippi/
Coelho De Moraes
O cinema tem disso. Guarda e esconde. Trabalha com o passado
que fiz. Fixa o presente para jogar na memória. Presente fixo. Deixa rolar a
fita que ele se dramatiza, movimenta o passado e no hoje reciclamos aquilo que
já foi. Antropofagia.
Zé Lippi trabalhou em cinema durante muito tempo e isso será
amplamente repetido pelos jornais. Ele é
o projecionista do Cinema Paradiso aqui em Mococa. Amigo do meu pai, - que era alfaiate
e também Zé era, - Lippi deixa o mundo durante a mudança radical por que passa
a indústria cinematográfica. Quando mudou a alfaiataria meu pai também parou,
só não deixou o mundo, a não ser que sua mudança de residência para Mococa
tenha sido alguma metáfora.
Esses Zés amigos e arceburguenses fazem dessas coisas mas não
perdem o sorriso.
Zé Lippi foi mas está fixado na historia do cinema local.
Não do fazer filmes mas o de projetá-los e preservar a morredoura (sim, a
decadente) atitude de ir ao cinema,
sentar e comer pipoca. Isso está acabando. Hoje o motivo de ir ao cinema é
qualquer outro que não ver o filme. O projeto
de ‘ir ao cinema’ está em FadeOut.
Não o filme, a indústria de produção, mas o ato de ir ao cinema deixa de ser lazer e
logo logo sumirá do mapa. O cinema parece se ampliar em distribuição mundial
com as facilidades da tecnologia e dos tablets. Mas desaparece nas salas
vazias.
O mundo é assim.
Inventamos uma TV domiciliar gigantesca para competir com o
cinema, mas, vemos imagens 3X4 nos celulares. Imaginem Lawrence da Arábia no celular!
Ou o Piratas 4! Avatar nem digo pois o celular vive de Avatares.
Os Zés aqueles achavam que não. Que o mundo era fixo também como
se o sol girasse em volta deles. ‘Epuur se muove’ disse um cego Galileu e este
disse e via mais do que nós, povos da
civilização da óptica e do poder de ver, de conseguir enxergar. Galileu não era
Zé e acredito que os Zés têm essa intrincada essência de achar que o mundo é do
jeito que vêm e que nunca muda. Ainda mais se esses Zés forem oriundo das Gerais.
A vida, o mundo, podia ser uma fita de cinema. As estrelas
por mais glamurosa que fossem certamente eram virgens angelicais e aquele
imundo bandido claramente mostrado no começo do filme seria punido no fim. Quando quiser a alegria de volta eu boto o Zé
Trindade para debochar de todo mundo, inclusive de si mesmo. Se desejar
melancolias roceiras e atitude ranzinza eu chamo o Mazzaropi e curto a
maleducação caipira que carregava contra os coronéis. Mas tudo é filme. Não
passa de fita.
- Zézé, você está fazendo fita, menino, - dizia a mãe do
Lippi. E o Zezé queria era fazer a fita rolar buscando os buraquinhos das cremalheiras
e os tortuosas caminhos em direção à lente. Daí num salto a nova realidade se
grudaria na parede por duas horas.
Zé Lippi manteve o cinema de Mococa funcionando, saiu,
voltou, enquanto ia buscar o neto na escola Nancy, projetou mil fitas, carregou
centenas de máquinas, torceu pelo Palmeiras, - que é o correto dos oriundi, - pintou
os dedos de carvão, estropiou os olhos contra a grande luz do bojo grávido da
projeção, andava sorrindo pelas ruas, cumprimentava as gentes da catraca, ‘miles’
de amigos, patronisa cineclube, ganha diplomas, ganha homenagens, fez seu
trabalho e foi dormir no plano das idéias dos outros que o amaram.
Quando um pólo de cinema surgir em Mococa que se faça um
filme sobre o Zé Lippi.
Será um filme do bem, da alegria de viver, do amor ao
trabalho, da manutenção da arte sétima e maior; isso nos sugere que o Zé Lippi
dormita agora no sétimo céu medieval.
Com ou sem Galileu para perturbar a desordem do Universo.



