foto retirada do http://institutocasarao.blogspot.com/2011/03/peca-teatral-demiurgo.html
- Coelho De Moraes -
Platão
diz que o homem – ser humano ou homem gênero? - é a sua alma e que apenas pela alma é possível
ao homem conhecer a verdadeira realidade, ou seja, o Mundo das Formas. A
primazia, portanto, no pensamento platônico é da alma em relação ao corpo. Mas, de onde ele
tira essa idéia, uma vez que os Pré-Socráticos se debateram em demasia para
explicar a Physis – natureza – através da racionalidade? Se alinhavarmos o
pensamento dos filósofos daquele momento, veremos que Platão faz um retorno ao
Mito, apenas trocando o nome de Zeus para Demiurgo, por exemplo. Demiurgo ou
Daimon, a entidade que plasma a matéria dando ordem ao universo.
A Psicologia platônica – se podemos dizer nesse sentido - tem intenções éticas: provar a necessidade de controlar as tendências instintivas do corpo; não há referência alguma de que isso é um mal, em si - garantir uma retribuição futura àquele que procura a justiça - ir para o céu e se dar bem – devendo-se entender que justiça, na Hélade do século V a.c, nada tem a ver com a noção atual de justiça, afinal, mulheres, estrangeiros, escravos e crianças, não passavam de meros complementos da vida do homem ateniense, por exemplo.
A Psicologia platônica – se podemos dizer nesse sentido - tem intenções éticas: provar a necessidade de controlar as tendências instintivas do corpo; não há referência alguma de que isso é um mal, em si - garantir uma retribuição futura àquele que procura a justiça - ir para o céu e se dar bem – devendo-se entender que justiça, na Hélade do século V a.c, nada tem a ver com a noção atual de justiça, afinal, mulheres, estrangeiros, escravos e crianças, não passavam de meros complementos da vida do homem ateniense, por exemplo.
Essa
chamada psicologia possui também
intenções gnosiológicas: estabelecer a possibilidade de um conhecimento do
Mundo das Formas, ou das Idéias. E isso é uma sacada platônica sem base alguma na racionalidade.
Se Platão sugere que o mundo sensível – esse mundo que podemos sentir e pegar –
gera o imaginário, certamente ele usou deste estratagema para esboçar o seu
mundo das idéias. Inventou e Fantasiou.
A
alma platônica é simbolizada por um cocheiro conduzindo um carro puxado por
dois cavalos alados. A alma racional (Nous, Logos), simbolizada pelo cocheiro,
é imortal, inteligente, de natureza divina e situada no cérebro. A alma
irracional (Thymós), o cavalo branco, é fonte das paixões nobres; é mortal
porque é inseparável do corpo, estando situada no tórax. A alma apetitiva
(Epithymía), simbolizada por um cavalo negro, é fonte de paixões pouco nobres;
é mortal porque também é inseparável do corpo, estando situada no abdômen. Fica evidente,
através da metáfora, que esta estória do Platão é tão fantástica, ou, tão real,
quanto falar que o fogo de Zeus deu vida
aos humanos (húmus) de barro moldados por Prometeu. Se podemos acreditar em
uma, podemos acreditar na outra.
Demiurgo
criou a alma racional – criou por que quis ou foi algum acidente, algum acaso?
- com os mesmos elementos da Alma do Mundo, por
esse motivo ela é imortal e tem caráter divino, ou seja, tem algo do Mundo das
Formas. No entanto é cópia e vale menos. Esse algo semelhante ao mundo das
Formas permite que a alma entre em contato com o Mundo Inteligível (das Formas
ou das Idéias). Relembre. Se a alma relembra (anamnése) é por que guardou em algum lugar o que deve
ser lembrado, e, nesse caso, Platão é obrigado a lançar mão da sabedoria hindu
e clamar pela Metempsicose, ou seja transmigração das almas de corpo para corpo.
Sócrates ainda diz que se o cidadão não se comportar convenientemente voltará
em algum corpo de menor valor como por
exemplo no corpo da mulher, do escravo, de uma ratazana ou rabanete...
Segundo
o mito de Demiurgo – sim, Mito, retorno ao Mito. Quando não explicamos,
inventamos o mito para acreditar na estória, então, em determinado grau de
necessidade, passamos a ter fé - que é diferente de saber, pois é possível
ter fé até naquilo que nem existe. Voltando
ao mito, as almas recém criadas conduziam seus carros pelo mundo celeste – tal
é a fantasia de Platão que ele chama de pedagogia, ou metáfora para ensinar -,
e era permitido, a elas, olharem para um plano superior (o das Formas ou
Idéias). Cabe perguntar: permitido por quem? Pelo Demiurgo? Pelos deuses? Pelo
Daimon?
Embevecidas
com o brilho, beleza e perfeição das Formas ou das Idéias – brilho, beleza e
perfeição são valores relativos e depende de quem olha e analisa -, os
cocheiros perdiam o controle de seus carros (que é um acontecimento casual,
acidental) e, não conseguindo dominar os
cavalos, caíam no plano da Matéria ou plano Sensível. Lembremos que a
queda dos anjos e mensageiros já fazia parte da cosmogonia de hebreus e
cristãos, posteriormente.
Os
cavalos, símbolos das paixões e associados ao corpo são grandes estorvos para o
cocheiro, impedindo-o de contemplar as idéias, arrastando-o para baixo e
fazendo-o cair para o mundo corruptível da matéria. Ou seja, contemplar as
grandes idéias ou Formas não basta para se livrar das torrentes de paixão.
Vemos que há uma tendência de transformar tudo o que é matéria em coisa corruptível.
Ninguém quer aceitar que essa é a condição da matéria – ser
corruptível (nascer, existir, morrer) e não engendra nenhum pensamento de que
deva existir algo perfeito em contrapartida. Alguns cocheiros puderam ver mais
e melhor o Mundo das Idéias (puro acaso), antes da queda (outro acontecimento
casual). Por esse motivo, algumas almas são mais sábias, estão mais próximas da
Verdade. O Filósofo é um cocheiro que viu mais sobre o Mundo das Idéias, fato que sugere mais um acontecimento casual.
Como o acaso toma
parte especial em todas essas estoriazinhas, não?
Platão,
não contente, ainda complementa: “O melhor que pode acontecer a um Filósofo é
morrer, porque ele retornará ao Mundo Inteligível (das Formas ou das Idéias) e
poderá contemplá-lo plenamente”.
Nirvana?
“A Filosofia é uma preparação para a morte”?

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