segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A Alma Platônica


 foto retirada do http://institutocasarao.blogspot.com/2011/03/peca-teatral-demiurgo.html
 
- Coelho De Moraes -
            Platão diz que o homem – ser humano ou homem gênero? -  é a sua alma e que apenas pela alma é possível ao homem conhecer a verdadeira realidade, ou seja, o Mundo das Formas. A primazia, portanto, no pensamento platônico é da alma em relação ao corpo. Mas, de onde ele tira essa idéia, uma vez que os Pré-Socráticos se debateram em demasia para explicar a Physis – natureza – através da racionalidade? Se alinhavarmos o pensamento dos filósofos daquele momento, veremos que Platão faz um retorno ao Mito, apenas trocando o nome de Zeus para Demiurgo, por exemplo. Demiurgo ou Daimon, a entidade que plasma a matéria dando ordem ao universo.
            A Psicologia platônica – se podemos dizer nesse sentido -  tem intenções éticas: provar a necessidade de controlar as tendências instintivas do corpo; não há referência alguma de que isso é um mal, em si -  garantir uma retribuição futura àquele que  procura a justiça - ir para o céu e se dar bem – devendo-se entender que justiça, na Hélade do século V a.c, nada tem a ver com a noção atual de justiça, afinal, mulheres, estrangeiros, escravos e crianças, não passavam de meros complementos da vida do homem ateniense, por exemplo.
            Essa  chamada psicologia possui também intenções gnosiológicas: estabelecer a possibilidade de um conhecimento do Mundo das Formas, ou das Idéias. E isso é uma sacada platônica sem base alguma na racionalidade. Se Platão sugere que o mundo sensível – esse mundo que podemos sentir e pegar – gera o imaginário, certamente ele usou deste estratagema para esboçar o seu mundo das idéias. Inventou e Fantasiou.
            A alma platônica é simbolizada por um cocheiro conduzindo um carro puxado por dois cavalos alados. A alma racional (Nous, Logos), simbolizada pelo cocheiro, é imortal, inteligente, de natureza divina e situada no cérebro. A alma irracional (Thymós), o cavalo branco, é fonte das paixões nobres; é mortal porque é inseparável do corpo, estando situada no tórax. A alma apetitiva (Epithymía), simbolizada por um cavalo negro, é fonte de paixões pouco nobres; é mortal porque também é inseparável do corpo, estando situada no abdômen. Fica evidente, através da metáfora, que esta estória do Platão é tão fantástica, ou, tão real, quanto  falar que o fogo de Zeus deu vida aos humanos (húmus) de barro moldados por Prometeu. Se podemos acreditar em uma, podemos acreditar na outra.
            Demiurgo criou a alma racional – criou por que quis ou foi algum acidente, algum acaso? -   com os mesmos elementos da Alma do Mundo, por esse motivo ela é imortal e tem caráter divino, ou seja, tem algo do Mundo das Formas. No entanto é cópia e vale menos. Esse algo semelhante ao mundo das Formas permite que a alma entre em contato com o Mundo Inteligível (das Formas ou das Idéias). Relembre. Se a alma relembra (anamnése)  é por que guardou em algum lugar o que deve ser lembrado, e, nesse caso, Platão é obrigado a lançar mão da sabedoria hindu e clamar pela Metempsicose, ou seja transmigração das almas de corpo para corpo. Sócrates ainda diz que se o cidadão não se comportar convenientemente voltará em algum corpo de menor valor  como por exemplo no corpo da mulher, do escravo, de uma ratazana ou rabanete...
            Segundo o mito de Demiurgo – sim, Mito, retorno ao Mito. Quando não explicamos, inventamos o mito para acreditar na estória, então, em determinado grau de necessidade,  passamos a ter fé -  que é diferente de saber, pois é possível ter  fé até naquilo que nem existe. Voltando ao mito, as almas recém criadas conduziam seus carros pelo mundo celeste – tal é a fantasia de Platão que ele chama de pedagogia, ou metáfora para ensinar -, e era permitido, a elas, olharem para um plano superior (o das Formas ou Idéias). Cabe perguntar: permitido por quem? Pelo Demiurgo? Pelos deuses? Pelo Daimon?
            Embevecidas com o brilho, beleza e perfeição das Formas ou das Idéias – brilho, beleza e perfeição são valores relativos e depende de quem olha e analisa -, os cocheiros perdiam o controle de seus carros (que é um acontecimento casual, acidental)  e, não conseguindo dominar os cavalos, caíam no plano da Matéria ou plano Sensível. Lembremos que a queda dos anjos e mensageiros já fazia parte da cosmogonia de hebreus e cristãos, posteriormente.
            Os cavalos, símbolos das paixões e associados ao corpo são grandes estorvos para o cocheiro, impedindo-o de contemplar as idéias, arrastando-o para baixo e fazendo-o cair para o mundo corruptível da matéria. Ou seja, contemplar as grandes idéias ou Formas não basta para se livrar das torrentes de paixão. Vemos que há uma tendência de transformar tudo o que é matéria em coisa corruptível. Ninguém quer aceitar que essa é a condição da matéria – ser corruptível (nascer, existir, morrer) e não engendra nenhum pensamento de que deva existir algo perfeito em contrapartida. Alguns cocheiros puderam ver mais e melhor o Mundo das Idéias (puro acaso), antes da queda (outro acontecimento casual). Por esse motivo, algumas almas são mais sábias, estão mais próximas da Verdade. O Filósofo é um cocheiro que viu mais sobre o Mundo das Idéias, fato  que sugere mais um acontecimento casual.
            Como o acaso toma parte especial em todas essas estoriazinhas, não?
            Platão, não contente, ainda complementa: “O melhor que pode acontecer a um Filósofo é morrer, porque ele retornará ao Mundo Inteligível (das Formas ou das Idéias) e poderá contemplá-lo plenamente”.
            Nirvana? “A Filosofia é uma preparação para a morte”?

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