AUTO DA BARCA DO INFERNO, DE GIL VICENTE, MONTADO EM 98/99 - CENA FINAL
- aos filibusteiros –
Coelho
de Moraes
DRT 45365 – SP
Há motivos que nos induzem a práticas obscenas. Obscena quer dizer, fora de cena. Não que seja feio, mas que está fora da visão da platéia, por assim dizer. Aquilo que não dá para ver.
Uma delas é a espiritualidade. Nada
mais obsceno que a espiritualidade. Ninguém vê. E, o que sentem - “a energia que rola” - tem muito de delírio coletivo, individual, ou
fé cênica. Invencionices de uma mente
romântica, por assim dizer.
Quantas e quantas vezes atriz ou ator não subiram ao palco para trazerem de
trás da cena – ou de trás de suas máscaras -
aquilo que estava escondido. Esse tal escondido é o obsceno. E a atriz
ou ator conseguem essa proeza através da Fé Cênica.
Sabe quando você vai a uma loja ou
restaurante e pergunta se o produto é bom? A resposta tem que ser sempre
positiva ou não venderão o tal produto mesmo que o bacalhau já tenha passado do
tempo. Por essa razão qualquer pastor de almas
dirá que a espiritualidade está à mão, de
como se pode “sentir” as vibrações, seja lá o que seja isso. Há inúmeros
manuais para se sentir a alma e perceber as vibrações e adentrar o mundo da
espiritualidade.
Já ouviu falar em motel especial para
mentes e almas? Ninguém ouviu. E que dizer quando se discute o problema da
química entre amantes...? O que será que
acontece no momento em que se conhece
alguém? Não existe nada de espantoso nisso tudo... Mas, também, ninguém sabe de
nada... As pessoas preferem a
complicação ao que é mais simples. Quando encontramos a pessoa o que vemos é
seu corpo e seu rosto e suas características humanas. A pessoa olha você e você
a olha e surge o interesse. Chamam isso de química. Falta é palavra adequada,
na verdade. Daí o surgimento da poesia... por pura falta da palavra adequada.
Pode ser que a imagem fotográfica do ideal que alguém tem na cabeça combina com
a imagem que vê naquele momento. Depois, com os anos, tudo muda, é claro, mas,
naquele momento que chamaremos de mágico, é fatal: Amor à primeira vista. Amor,
por falta de palavra melhor. O inexplicável.
Será que o fenômeno da observação da
alma ocorre imediatamente? É como o Allen Palito em sua prova de metafísica,
expulso que foi da sala por que o pegaram colando... ele olhava para a alma da aluna que se sentava ao lado. E na falta de uma alma ao lado?
Provavelmente não passa de resposta
imediata da biologia e o clamor da manutenção das espécies. Sim! Nada de amor. Em
primeiro lugar, mandam os ditames biológicos: temos que preservar a espécie da
extinção que se aproxima. Amor é construção cultural. Assim como o romantismo e
o cavaleiro andante e a idéia de que a
Terra é centro do Universo. Amor é para todos e com todos: ágape ideal. Amor e
sexo são coisas diferentes. É, claro, que as pessoas buscam aliança entre
iguais, ou ainda, buscam compromisso para manter o estado de equilíbrio – na
melhor das hipóteses – cá entre nós há quem procure o par que lhe bata na cara
ou o sove com ancinho -, que é prática comum nas sociedades modernas e a
cultura manda, mas, nada disso tem a ver com amor. O assunto é bem outro.
No clamor da carne o que se quer é
coito.
De preferência com alguém que responda
aos seus valores estéticos, pois isso estimula a obtenção de prazer. Se houver
coincidência nos gostos certamente rolará algo. Abre-se o clima. Ilumina-se a
cena com valores der romantismo quixotesco e exotismos. Se não houver
coincidência alguma, que é o que ocorre na maioria das vezes; nada rola e
parte-se para outra, que é o que ocorre na maioria das vezes.
Os sensores animais percebem a boa genética
e um bom desenho de corpo, de acordo com os padrões investidos pela moda.
Quando há união entre desastres
estéticos - segundo a moda vigente, é claro – o que chamam de amor será
eufemismo para tolerância mútua, cercada por ambiente de resignação e
acomodação final – que é próprio de humanos.
O que a
moda não pedir, e, eu duvido que
as pessoas façam referência à alma, ou
que falem de valores da alma. As pessoas não falam disso. Nem pensam nisso Nem pensam em nada. Na onda do alvoroço dos
hormônios, usam várias desculpas para cair na rede: A nossa música, ou a letra
da canção sacana da obscenidade permitida na rádio, o clima numa atividade não
rotineira ou artística que dá muita menção a excitação repentina, a aproximação
com ídolo e outros quejandos.
Pense na cena. Nunca vi a pessoa. Ela
aparece na minha frente e eu me espanto: - Uau! Que bela alma! Estou apaixonado
à primeira sentida!
Realmente não é assim.
Precauções perante a solidão; as
pessoas ainda encaram – a solidão - como uma situação de fim do mundo e querem se livrar da
possibilidade. Mas essa sensação só aparece na cabeça de seres ocos. Quem se
dedica à arte, por exemplo: escrita, pintura, teatro... não terá tal problema, em sua maioria. Só
aquelas pessoas que acham que arte depende de inspiração e piram na frente da
folha ou da tela em branco. Nada sabem sobre isso e podem se livrar, também, da
possibilidade de se criar algo. Criar no sentido da arte. Sublima de um lado,
cria do outro.
Amor romântico fica para os anjos e
para os séculos VIII, IX, X... e por aí vai, com capacete de metal e tudo mais.

Nenhum comentário:
Postar um comentário