segunda-feira, 12 de setembro de 2011

DIÁRIO DE PIRATAS



COELHO DE MORAES

Dia Um, como se nascesse
Perdidos entre beijos e abraços nostálgicos eu e RoseBraga resolvemos comer a pizza do sábado. Assim se começa um conto comum e vulgar. Terá começo meio e fim?
Com quantos dígitos veremos no ar as aves de arribação? Como se conheceram a América e o jovem melindroso perseguido pelo destino? O episódio foi de uma banalidade comovedora, e envolveu uma pulseira perdida e um mal-entendido. Menos irrelevante será talvez relatar como sucedeu a revelação de que eles partilhavam algo mais do que a vontade indomável de transformar a Mogiana (de Pinhal a Mococa) num imenso palco para os trânsitos e brados de Pentesiléia e de Aquiles e de toda fauna de Vereadores que já ocuparam, e ocupam,  as cadeiras da Câmara, sonhando um dia serem Deputados Estaduais... tais cadeiras aceitam quaisquer tipos de bundas... bundas dorminhocas, bundas vagais, vagabundas,  bundas perdulárias, bundas de futuros prefeitos e não há nada que tenham construído a não ser a capacidade de observar o tempo passar – verdadeiros Fiscais da Natureza -  pois tudo o que pretendem haver construído existiria assim mesmo, sem interferência dos tais (geniais) parlamentares. Mas a história é feita desses equívocos, e dessas bundas vazias,  ou dessas estórias.
Valha-me Alexandre, o Herculano, que propunha uma bunda como predicado,  como cousa vulgar e nada mais.
Foi quando o povo da cidade de Muganga, tendo eleito por duas vezes ou três vezes padres e analfabetos, fissos isso e aquilos, pró-rogos e vicariato sem vergonha para um projeto Cura cuja eternidade se desdobra além de nossa lucidez e cuja dívida avança pelo século 21, em piscinas inúteis e adulteradas, em clubinhos populares para agrado da multidão faminta e alienada...  tardia também, tal turba,   revelou que não saberia o que escolher, caso houvesse escolha: a felicidade ignorante e feia ou a lucidez feliz e desavergonhada,  profunda e permanente sobre as razões e timbres da infelicidade.  COELHO, não o do Updike, sentia o mesmo, e estas coisas criam um vínculo menos quebradiço do que um passado de banco de escola ou de caserna partilhada. Mas as cousas não se ficam por aqui, há também a paixão comum pela gastronomia do sul de minas, o "segredo mais bem guardado da cozinha mineira”, talvez. Perdições entre pamonhas e curaus... literatura e um saudade de Arceburgo, talvez...

Dia dois, e Kafka na panela
Terça-feira e é dia marcado para o cinema. Eu e RoseBraga, vinte horas pouco mais sairemos do Jardim São Luiz, rumo ao quinquagenário Cine Mococa. A marcar em todas as agendas e datas de passagem: Ver e rever “O Cozinheiro, o Ladrão, a mulher e o amante”, mas não se deve passar sem o “Bebê Santo de Macon”, ou ainda “A Tempestade”, já que falamos sempre de um Pedro CaminhoVerde, autor de obras primas. Todas suas obras serão primas? Nada disso porém passa pela cabeça de muitos mocoquenses que estão aquém dos símbolos e das abstrações. A eles se permite dormir em música que dizem ser sertanejas (guarânias, na verdade) ... mas, limitam-se a nos deixar Zen – Zen paciência. A saga das testas cobertas de galhos, as dores de cotovelo, a choradeira de trouxas alcoólicos esparramados nos bares do Descanso, por exemplo, enquanto as  vacas mugem ao longe e de longe se vê um por-de-sol flagrado entre cambiante de violenta e um sulferino dormido de épocas. Isso antes. Agora, hora noturna e pouco fria, nos sentiremos aquecidos no cinema.  Enquanto não chega o momento de despejar do trono ou seja lá quem nada fizer de programado ou planejado, a corja de lambões e lambe-sacos; enquanto a saga do senhor sem anéis não se der à mostra, contentemo-nos com as glórias passadas, idas e desguarnecidas de qualquer atavio.

Dia três, enquanto as chuvas disparam
Excelente.
Por favor, tentem compreender. Ou não! Não julgamos, sim julguemos como cousa de puro oiro, mas, não condenamos, sim, sim, condenemos, enfim para outras terras e exclusões maravilhosas, porém,  não pratiquemos o ostracismo, entre estranhos em terras estranhas, contudo enviemos para o exílio as piores de nossas malfadadas idéias. Em Muganga, Macondo e outras terras,  idéias não servem para nada.  Não é uma questão de fundamentalismo, nem islamismo, nem alcoranismo, nem xiitismo, podendo ser shiitismo dos ingleses em que tudo se transforma em porcaria ou (s)crap, como por exemplo a cultura de uma cidade como a nossa – como orgulhosa cidade do interior mogiano – mugiante - , tudo se transforma em nihilismos; não é uma questão de atropelo a qualquer direito natural. Apenas pedimos respeito e consideração. Reclamamos somente o direito ao nosso quinhão quotidiano de ar relativamente puro. É só isto. Há espaço para todo mundo, porém, você pode, até, ficar bem de verde, quando engolir sua fumaça e se transformar em um saco podre de câncer. Você merece.

Dia quatro, um momento no viés
REPÚBLICA 70 RIACHUELO: Por lá passaram SemiDeus, Bado, Preto, Mandrake, Pancada, o caro CDF, o Zize, o Vasconcelos de São José do Rio Pardo – cidade onde muita gente grada ia mijar nos bailes, e na devolução, o mijo de SanZé vinha em retorno na AEM -  além da quebradeira de copos, corpos e vidros e janelas... bailes e brigas... esses, entre outros. Indicaram-me recentemente dois fatos com relevância republicana assinalável.
Eu e RoseBraga, na manhã, ouvíamos tais histórias, comendo muito requeijão e pão preto.
No sítio de não sei que pessoa duas amigas, íntimas amigas, amantes amigas da mais pura sociedade mocoquense se mataram pois seu amor não era permitido pela sociedade da época... Seria agora?... isso, entre outras cousas... entre outras coisas, leio textos cujo teor denota uma das mais louváveis atividades que conheço: hoje vejo que os partidos políticos se misturam como iguais e, aqueles que são tidos como radicais - cá de fora - se mostram anacrônicos, bem démodè, bem nulos, na verdade, esperando aposentadoria... Culpa minha?  por que fomos tão cegos? Já não se misturavam antes? Não vimos? Éramos coniventes?... concordata!
Para além destes temas de óbvia e lamentável atualidade, muitos outros são abordados, investido de uma grande e magnífica opulência. Falece o comediante mas a piada continua com a laicidade e os valores republicanos (ou as suas violações) como denominador comum.
Há certo desconforto, muita vez, se exprimir o vocábulo "partidários" e derivados. Assistimos a lógica da negação partidária, re-fundação de outra vertente, mudando o nome da estrela, ou no mais, nomeado a estrela para outros sóis;  a contestação que está implícita parece-me, em certas ocasiões, poder tornar-se contraproducente; no entanto há um barco para se navegar. Talvez com mais espaço, para desatinos e desvarios e devaneios... Prestemos atenção às aves de alta plumagem.

Dia 5, enquanto a água não me chega aos pés no Descanso
Excelente domingo para nós.
TV a satélite e tudo mais. Muito filme bobo, mas algumas relíquias.
ANÚNCIOS de outros tempos: Este é velho como muita gente da cidade... Parada no tempo antigo como muita gente da cidade... Tem muitos que ainda choram por uma fonte dos Amores que nunca conheceram corretamente... Teriam saudades dos pernilongos? Ou do mal cheiro? Ou ainda dos lacerdinhas que infestavam nossos cabelos? Vá saber!!... antiguinhos, antiquados, antiqualha. Dado Histórico: A antiga Fonte dos Amores vinha da décda de 30. Em meados dos anos 60 já era sujeira. Foi remodelada em 70 e durou, normal em funcionamento, até 2008, quando foi remodelada, tentando voltar ao que era. Se contarmos bem a Segunda fonte durou de, 70 a 2008,  mais que a primeira, portanto, esta deve receber o galardão de tradicional. Homessa!
Mas, o filme continua: Inseticida Banzé, cuidado para não matar o cão também:
E a velha tinha moscas... e as moscas orbitavam... sobre a velha volitavam... lá na casa suja e limpa... Morriam as moscas, matavam a velha... A velha dizia... bradava...  ninguém ouvia... banzé, banzai! Flavinho corria no quintal, acorria atrás dos balões e gritava banzai! banzé... Contras as moscas bato o pé! Festa Junina! Balõezinhos a subir. Os chinesinhos.
Sabem, aquela velha que dá um pontapé no balde?
Esquece, tal velha não existe... velhos se acomodam... comodistas... raros os ativos. Em geral se entregam ao ficcional céu empírico. Com direito a nuvem e lua.
É noite.
Assim acaba nossa história de amor.

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