segunda-feira, 19 de setembro de 2011

CULTIVAR O PADRÃO / A REPETIÇÃO / O CÔMODO

imagem retirada de www.depoisdosquinze.com

- COELHO DE MORAES -

Quando se foge do padrão, as pessoas caem de pau em você.
Transfiramos a abordagem para o teatro que queremos, por exemplo,  ou que desejamos ou que sonhamos. Posso fazer o mesmo com a música. Música moderna ou contemporânea. Enquanto meu CD de Natal sempre vende muito todo ano (padrão) as minhas obras contemporâneas vendem nada. Será que é aí que falamos de arte e comercio?
Que peça fará sucesso? De que jeito essa peça fará sucesso. Quanta mídia se deve comprar – TV, rádio, jornal – já com suas boas resenhas embutidas, pois tudo se resume a comprar algo. Não há, em Mococa, uma crítica espontânea da arte. Será que não há um meio de nada comprar para criar ou usufruir arte? E para isso há regras e normas e leis? Fazendo assim o público virá? Fazendo assado não vem mais? Mas e o público acomodado que não sai do lugar merece futuro? Por que devo contar e pagar  tudo de 30 em 30 dias se levo 146 dias para compor uma obra musical? Então não é possível experimentar? Resposta: Não!
Mas o experimento é a fonte do trabalho bem acabado. Empirismos. E se eu só quiser experimentar? Talvez não tenha público durante muito tempo, pois o povo deseja ver aquilo que não os pegue de surpresa. Se Deus aparecesse em forma de cubo ou pirâmide ninguém acreditaria. O povo – essa entidade leiloada e usada por todos -  é comodista e meio burro. Símbolos passam batido pela maioria. A maioria deseja tudo bem mastigadinho, pois para isso foi domesticada desde a escola. Sem esforço. O único esforço é o de ser escravo. Para isso foram educados.
Será que podemos sair dos formatos de sempre já que sempre houve mudanças nos formatos do teatro / da música / do cinema /  ao longo dos séculos ou essa mudança é tão lenta que ninguém percebe?
Hoje, quando a busca do exótico beira a loucura talvez os deuses do dinheiro permitam que novas imagens subam a palco. Plutões,  donos do capital, novos deuses,  que se alimentam de novas almas  para almoçarem e elevarem os pontos do ibope; fenômeno:  logo que são humilhados começam a lucrar. Mas, enquanto isso, artistas, prevejo que devemos urdir na noite o que e como deve ser o futuro. Podemos errar e assim somos nós. Nossa estrada é traçada de erros, então descobrimos novos caminhos.
Pensemos sobre isso. Mas, não se iluda, artista e livres pensadores, somos só nós os que havemos de pensar. O resto do mundo pensa em mais nada. Vive de inércia, dentro de um padrão pré-estabelecido. Uma bola de neve que espera o poste.
Mesmo que vivamos esse padrão em muita coisa que fazemos, também fazemos a diferença por que rompemos o padrão. E, essa diferença não quer dizer que seja para melhor. Não há essa obrigação do melhor pois não sabemos do que se trata, esse tal  melhor. Em geral é melhor para alguém outro e não para nós. Aquilo que as pessoas falam que é o melhor, em geral, é aquilo que faz alguém lucrar algo. São palavras de Faraó, aquele que detém o poder, que dita a norma e o que deve ser considerado bom. Não se iluda. O artista pode ser  a diferença que esculhamba o normal – padrão – do dia a dia;  e as pessoas não querem saber desses caras. Pode crer.
O artista deve ficar livre. Manter o processo crítico. Não se aliar a clubes talvez? Ou, ao menos estar ciente de que pode ser expulso do clube. Woody Allen - depois de Grouxo Marx -  disse que não entraria num clube que o aceitasse como sócio.
Utopias. Mentiras ditas mil vezes.
Sempre digo que quando o dia 21 de dezembro de 2012 chegar e a eletricidade for pro beleléu, nós os artistas não teremos nada a perder.  Teatro não precisa de iluminação especial e pode ser feito na rua – já um plei-esteixon ou um microfone de lapela não funciona mais. Teatro pobre! O ator e mais nada.
Música: Nem se precisa de instrumento. Canto ou assobio. Mas se quiser faço uma flauta de bambu ou bumbo dionisíaco ou lira orfeica e pronto. Já a fábrica de lata ou gelatina, elas precisam de energia para gastar e poluir e impactar a natureza em nome do progresso. Então elas pararão de funcionar. Enfim  alguma coisa boa.
Escrita: Papel reciclado e tinta natural, como era dantes na casa de abrantes. Ou escreverei com barro ou merda – seguindo o Marques de Sade – nas paredes das ruínas. Acredito que merda sempre existirá. Rembrandt fazia sua própria tinta, não com merda mas com tinturas naturais. Agora, as usinas de produção de gasolina precisam de eletricidade, diesel; e a energia nuclear? Param ou não?
E, é claro, tais indústrias precisam de seus escravos para o trabalho. Herdeiros dos faraós embalsamados, como diz o poeta, necessitam da mão de obra barata. É... A arte não para.
Quando não nos deixam falar inventamos um blog ou gritamos na rua.
Acabou a eletricidade e acabou o blog? Sobe-se no palco ou se faz teatro de rua. Mambembes.  O diferencial é ir atrás do auto-falante: teatro, música, vídeo... são as armas. Mesmo assim muita vez nos desconvidam pela impertinência. Nossa expressão corporal na rua (pose?) é nossa arma e bandeira fincada no solo. Mas, será esse mesmo o caso. Fazer arte e vender e, depois,  sofrer se não compram? Cada um compra o que quiser.  E pra que servirá tudo isso se não passa de mera arte? Ars gratia Ars.
Lembro das aulas de psicologia – nos idos dos anos 80 -  quando concluíamos, friamente, da insignificância do artista. É isso. Somos completamente insignificantes até o momento em que balimos iguais a sertanejos ridículos fingindo cantar;  ou choramos na novela das seis por causa da menina com falsa leucemia; ou se fazemos o Analista de Bagé no teatro, com casa cheia. Aí nos tornamos valores. Tornamo-nos dinheiro viável. Potencial de lucro. Cheios de amigos. Cercados de produtores. A mídia do nosso lado.
Quero entrar numa sala de aula com 45 alunos para escangalhar 45 cabeças de uma vez com muita aula de Filosofia. Meu projeto é ser diretor do Oscar Villares, lá pelo ano 2015,  e continuar a ensinar como se  faz.

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