segunda-feira, 12 de setembro de 2011

DAS COISAS


 Gravura de Piranesi que faz parte da abertura do longa O CASO DOS 3 PIMENTA.
 
coelho de moraes

Convenhamos. Isso demonstra como funcionam os objetos que chamamos de “as coisas” e  que seguem o PADRÃO. Quando você foge do padrão, as pessoas caem de pau em você.
Transfiramos a abordagem para o teatro que queremos, por exemplo,  ou que desejamos ou que sonhamos. Posso fazer o mesmo com a música. Música moderna ou contemporânea. Enquanto meu CD de Natal sempre vende muito todo ano (padrão) as minhas obras contemporâneas nada vendem nada. Será que é aí que falamos de arte e comercio?
Que peça fará sucesso? De que jeito essa peça fará sucesso. Quanta mídia devo comprar – TV, rádio, jornal – já com suas boas resenhas, pois tudo é comprar algo e já se pede o que quer. Não há, em Mococa, crítica espontânea. Será que não há um meio de nada comprar para criar a arte? E para isso há regras e normas e leis. Fazendo assim o público virá? Fazendo assado não vem mais? Mas e o público acomodado que não sai do lugar?
Por que devo contar tudo de 30 em 30 dias se levo 146 dias para compor uma obra musical? Então não é possível experimentar? Não!
Mas o experimento é a fonte do trabalho bem acabado.
E se eu só quiser experimentar? Talvez não tenha público durante muito tempo, pois o povo deseja ver aquilo que não os pegue de surpresa. Se Deus aparecesse em forma de cubo ninguém acreditaria pois sempre esperariam um velhote de barbas brancas e um triangulo sobre a cabeça. O povo – essa entidade leiloada e usada por todos -  é comodistas e meio burro. Símbolos passam batido pela maioria. A maioria deseja tudo bem mastigadinho.
Será que podemos sair dos formatos de sempre já que sempre houveram mudanças nos formatos do teatro / da música / do cinema /  ao longo dos séculos ou essa mudança é tão lenta que ninguém percebe?
Hoje, quando a busca do exótico beira a loucura talvez os deuses do dinheiro permitam que novas imagens subam a palco. Plutões,  donos do capital, novos deuses,  que se alimentam de novas almas  para almoçarem e elevarem os pontos do ibope logo que são humilhados começam a lucrar. Mas, enquanto isso, artistas, prevejo que devemos urdir na noite o que e como deve ser o futuro. Podemos errar e assim somos nós.
Pensemos sobre isso. Mas, não se iluda, somos só nós os que havemos de pensar. O resto do mundo pensa em mais nada. Vive de inércia, dentro de um padrão pré-estabelecido. Uma bola de neve que espera o poste.
Mesmo que vivamos esse padrão em muita coisa que fazemos, também fazemos a diferença por que rompemos o padrão. E, essa diferença não quer dizer que seja para melhor. Pode ser  a diferença que esculhamba o normal – padrão – do dia a dia;  e as pessoas não querem saber desses caras. Vide Jesus. Independente de ser ou não filho de Deus - provavelmente não – ele escangalhou – tirou a cangalha, a opressão, tirou o jugo – das autoridades locais e foi parar aonde?
Todo mundo fala nele e ninguém segue nenhum dos seus ensinamentos e preceitos – sepulcros caiados, a bem dizer. Se assim fosse a sociedade – como é,  e não digo que seja coisa boa. Talvez fosse  esta verdade cristã – escangalhar a sociedade da época e de hoje, desconstruir a mundo. Mas quem quer isso se todos são seguidores de Caifás?
Ninguém há de lucrar, esta a palavra de ordem. Ninguém há de lucrar com a realidade -  vender pedaços de realidade. O problema é que há um clube comercial; mantêm a pose e se chamam paróquia. Beatos e bentos. Eleitos e fiéis. Mantenedoras da ordem.
O artista não faz isso. Nem deve. Deve ficar livre. Manter o processo crítico.
Já pensou? Sai pra rua com 12 caras sem lar ou dinheiro, pregando aqui e ali,  e vê no que dá.  Vamos ver se é possível uma Igreja pura que não cobre dízimos;  de que seus representantes sejam maltrapilhos e nem usem roupa de grife;  vamos ver quem é que vai querer receber conselhos de uns caras desses? Quem é que se dispõe à cruz, desta vez?
Utopias. Mentiras ditas mil vezes.
Na verdade foram valores usados por inescrupulosos que montaram suas igrejas e clubinhos religiosos munidos de CNPJ pago em dia a aproveitaram da carência afetiva de cada pessoa. Peixes que caíram nas redes.
Sempre digo quem quando o dia 21 de dezembro de 2012 chegar e a eletricidade for pro beleléu, nós os artistas não teremos nada a perder.  Teatro não precisa de iluminação especial e pode ser feito na rua – já um autorama ou um microfone de lapela não funciona mais. Teatro pobre! O ator e mais nada.
Música: Nem se precisa de instrumento. Canto ou assobio. Mas se quiser faço uma flauta de bambu ou bumbo dionisíaco ou lira orfeica e pronto. Já a fábrica de lata ou gelatina, elas precisam de energia para gastar e poluir e impactar a natureza em nome do progresso. Então elas pararão de funcionar.
Escrita: Papel reciclado e tinta natural, como era dantes na casa de abrantes. Ou escreverei com barro ou merda – seguindo o Marques de Sade – nas paredes das ruínas. Acredito que merda sempre existirá. Rembrandt fazia sua própria tinta. Agora, as usinas de produção de gasolina precisam de eletricidade, diesel, energia nuclear. Ou param.
E, é claro, tais indústrias precisam de seus escravos para o trabalho. Herdeiros dos faraós embalsamados, como diz o poeta.
Enfim. A arte não para.
Quando não nos deixam falar inventamos um blog ou gritamos na rua.
Acabou a eletricidade e acabou o blog? Sobe-se no palco ou se faz teatro de rua. Mambembes.  O diferencial é ir atrás do auto-falante: teatro, música, vídeo... são as armas. Mesmo assim muita vez nos desconvidam pela impertinência. Nossa expressão corporal na rua (pose?) é nossa arma e bandeira fincada no solo. Jesus era impertinente e chatonildo. Nossa cabeça erguida pode ser arrogância – e nada mais é do que  uma maneira de olhar mais longe. Ser pregado na crua e não dizer um Ai! ofende os poderosos.
Mas, será esse mesmo o caso. Fazer arte e vender e sofrer se não compram? Cada um compra o que quiser.
E pra que servirá tudo isso se não passa de mera arte?
Ars gratia Ars.
Lembro de aulas de psicologia quando concluímos, friamente, da insignificância do artista. É isso. Somos completamente insignificantes até o momento em que balimos iguais a sertanejos fingindo cantar;   ou choramos na novela das seis por causa da menina com leucemia; ou se fazemos o Analista de Bagé no teatro, com casa cheia. Aí nos tornamos valores.
Tornamo-nos dinheiro viável. Potencial de lucro.
Por isso me formei em Filosofia. Agora trato da minha Pós Graduação em Artes Visuais. Quero entrar numa sala de aula com 45 alunos para escangalhar 45 cabeças de uma vez.
É um sonho meu.

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