sexta-feira, 23 de setembro de 2011

FILOSOFIA / CULTURA / LIBERDADE


 baruch espinosa
 
Coelho De Moraes, após leitura de Marilena Chauí.

Havia uma pedra no meio do caminho, disse o poeta, sabendo bem que  havia um mundo após a pedra. Não fere as retinas cansadas, como acontecera ao poeta, mas leva-nos a percorrer outras sendas, percalços obrigatórios para quem está vivo e atira pedras para todos lado.
Morto não tira pedra. Cliente morto não paga, segundo Steve Martim.
A pedra fora a de maio de 1968 e tudo o que o ano de 1968 significou mundo afora, de Paris a Praga, de São Paulo a Berkeley, de Mococa e Milagres,  do Paralelo 27 ao Araguaia.
Em outubro de 1968, como um dos efeitos de maio, abriram-se as portas da universidade nova, a universidade crítica na qual se reuniam e debatiam as esquerdas do mundo inteiro, dos  anarquistas aos comunistas, dos socialistas aos trotskistas, dos social-democratas aos maoístas, enfim, esquerda como que dizendo: - aqueles que lutam e reamm contra o sistema de produção que transforma chaplins em autômatos.  
Nascia a Universidade de Vincennes. No dia Primeiro de Outubro: a aula inaugural proferida por Herbert Marcuse. No início da tarde, Michel Foucault iniciou um curso que antecipava o que viria a ser a Microfísica do poder. No final da tarde, Deleuze dava início ao seu curso sobre Espinosa.
A Filosofia prevalecia como vocação para a liberdade:
citemos Chauí
“ E nós, com a felicidade, Que em nosso pensamento é uma ascensão, Teríamos uma emoção, vizinha do espanto, que nos agarra Quando uma coisa feliz despenca sobre nós”.

Sei que nos dias que correm a filosofia é considerada mais uma profissão entre outras.
Por que se dedicar à Filosofia?
Havia um livro: Era Quo Vadis. Li, reli, tresli, sabia de cor algumas passagens e particularmente
o início, que me intrigara.  Petrônio estivera num festim no palácio de Nero e ali discutira com Lucano e Sêneca sobre a existência ou não da alma nas mulheres. E toda vez eu me perguntava como era possível alguém fazer essa pergunta, pois era evidente que as mulheres possuem alma. Na época, eu não sabia que devia essa certeza ao cristianismo, mas também não sabia que a simples admissão de alma nas mulheres não lhes havia adiantado muito pois o Paulão ainda dizia que homem anda na frente e mulher obedece, com alma e tudo.
Aparecia, com clareza, que a luta pela justiça, pela igualdade, pela liberdade não era uma luta moral, nascida do espírito da caridade, mas, ação política consciente determinada pela própria história. E tome atitude nisso, homens e mulhres. Era possível uma sociedade nova (sim), justa ( não sei direito o que é isso, quem regula a justiça?) e igualitária não simplesmente por causa de nossa indignação diante da injustiça e da desigualdade, mas porque era possível compreender suas causas e destruí-las.
É deslumbrante o fato de que o pensamento é capaz de pensar sobre si mesmo (reflete-se), que a linguagem pode falar de si mesma, que perceber e conhecer poderiam não ser o mesmo. O mundo se tornava, ao mesmo tempo, estranho, paradoxal e espantoso, aberto, amplo, e de fácil desorganização. Bastava dizer não e esquecer a cara de coitadinho própria dos heróis que dizem não...
Outras vezes, porém, penso que fui para a filosofia quando não mais podia tolerar a cultura da culpa cristã em que fomos criados. Sentia que era preciso encontrar outra ética em que a liberdade e a felicidade pudessem identificar-se – essa procura sempre endereça a Espinosa.
Talvez por causa dessas lembranças não posso considerar a filosofia uma profissão entre outras. Quem busca a filosofia como forma de expressão de seu pensamento, de seus sentimentos, de seus desejos e de suas ações, decidiu-se por um modo de vida, um certo modo de interrogação e uma certa relação com a verdade, a liberdade, a justiça e a felicidade. Mesmo em sala de aula, na atitude  professor, profissional contratado para falar sobre Filosofia, este professor deverá desencadear o estranho. Previsivelmente aquilo que lhe trará problemas com a  família do aluno e, muita vez, com a escola.  Não a verdade da burocracia, nem a honestidade da ‘res’ publica pois tudo isso é invencionice para enganar tolos. É uma decisão existencial, como nos aparece com tanta clareza nas primeiras linhas do Tratado da emenda do intelecto, de Espinosa. Essa decisão, penso também, não é possível se não admitirmos com Espinosa que pensar é a virtude própria da alma.
Sua excelência.

imagem retirada do sitio marcelloggjuventude.blogspot.com

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