baruch espinosa
Coelho
De Moraes, após leitura de Marilena Chauí.
Havia uma pedra no meio do
caminho, disse o poeta, sabendo bem que havia um mundo após a pedra. Não fere as
retinas cansadas, como acontecera ao poeta, mas leva-nos a percorrer outras
sendas, percalços obrigatórios para quem está vivo e atira pedras para todos
lado.
Morto não tira pedra. Cliente
morto não paga, segundo Steve Martim.
A pedra fora a de maio de 1968 e
tudo o que o ano de 1968 significou mundo afora, de Paris a Praga, de São Paulo
a Berkeley, de Mococa e Milagres, do
Paralelo 27 ao Araguaia.
Em outubro de 1968, como um dos
efeitos de maio, abriram-se as portas da universidade nova, a universidade
crítica na qual se reuniam e debatiam as esquerdas do mundo inteiro, dos anarquistas aos comunistas, dos socialistas
aos trotskistas, dos social-democratas aos maoístas, enfim, esquerda como que
dizendo: - aqueles que lutam e reamm contra o sistema de produção que
transforma chaplins em autômatos.
Nascia a Universidade de
Vincennes. No dia Primeiro de Outubro: a aula inaugural proferida por Herbert
Marcuse. No início da tarde, Michel Foucault iniciou um curso que antecipava o
que viria a ser a Microfísica do poder. No final da tarde, Deleuze dava
início ao seu curso sobre Espinosa.
A Filosofia prevalecia como
vocação para a liberdade:
citemos Chauí
“ E nós, com a felicidade,
Que em nosso pensamento é uma ascensão, Teríamos uma emoção, vizinha do
espanto, que nos agarra Quando uma coisa feliz despenca sobre nós”.
Sei que nos dias que correm a
filosofia é considerada mais uma profissão entre outras.
Por que se dedicar à Filosofia?
Havia um livro: Era Quo
Vadis. Li, reli, tresli, sabia de cor algumas passagens e particularmente
o início, que me intrigara. Petrônio estivera num festim no palácio de
Nero e ali discutira com Lucano e Sêneca sobre a existência ou não da alma nas
mulheres. E toda vez eu me perguntava como era possível alguém fazer essa
pergunta, pois era evidente que as mulheres possuem alma. Na época, eu não
sabia que devia essa certeza ao cristianismo, mas também não sabia que a
simples admissão de alma nas mulheres não lhes havia adiantado muito pois o Paulão
ainda dizia que homem anda na frente e mulher obedece, com alma e tudo.
Aparecia, com clareza, que a
luta pela justiça, pela igualdade, pela liberdade não era uma luta moral,
nascida do espírito da caridade, mas, ação política consciente determinada pela
própria história. E tome atitude nisso, homens e mulhres. Era possível uma
sociedade nova (sim), justa ( não sei direito o que é isso, quem regula a justiça?)
e igualitária não simplesmente por causa de nossa indignação diante da
injustiça e da desigualdade, mas porque era possível compreender suas causas e
destruí-las.
É deslumbrante o fato de que o
pensamento é capaz de pensar sobre si mesmo (reflete-se), que a linguagem pode
falar de si mesma, que perceber e conhecer poderiam não ser o mesmo. O mundo se
tornava, ao mesmo tempo, estranho, paradoxal e espantoso, aberto, amplo, e de
fácil desorganização. Bastava dizer não e esquecer a cara de coitadinho própria
dos heróis que dizem não...
Outras vezes, porém, penso que
fui para a filosofia quando não mais podia tolerar a cultura da culpa cristã em
que fomos criados. Sentia que era preciso encontrar outra ética em que a
liberdade e a felicidade pudessem identificar-se – essa procura sempre endereça
a Espinosa.
Talvez por causa dessas
lembranças não posso considerar a filosofia uma profissão entre outras. Quem
busca a filosofia como forma de expressão de seu pensamento, de seus
sentimentos, de seus desejos e de suas ações, decidiu-se por um modo de vida,
um certo modo de interrogação e uma certa relação com a verdade, a liberdade, a
justiça e a felicidade. Mesmo em sala de aula, na atitude professor, profissional contratado para falar
sobre Filosofia, este professor deverá desencadear o estranho. Previsivelmente
aquilo que lhe trará problemas com a família
do aluno e, muita vez, com a escola. Não
a verdade da burocracia, nem a honestidade da ‘res’ publica pois tudo isso é
invencionice para enganar tolos. É uma decisão existencial, como nos aparece
com tanta clareza nas primeiras linhas do Tratado da emenda do
intelecto, de Espinosa. Essa decisão, penso também, não é possível se não
admitirmos com Espinosa que pensar é a virtude própria da alma.
Sua excelência.
imagem retirada do sitio marcelloggjuventude.blogspot.com

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