segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A ILUSÃO A REALIDADE A EDUCAÇÃO


imagem retirada de http://www.sempretops.com/dicas/ilusao-de-otica-de-terror/

Coelho De Moraes, refletindo sobre Vitor J. C. Cardoso – 1997
            Escrita por Platão na sua fase da maturidade  A República – livro que transita pelas boas casas legislativas do Brasil mormente em Mococa, SP, que me parece ser livro de cabeceira de vereadores -  é um dos  maiores dos seus diálogos, constituindo marco fundamental do pensamento ocidental.
            Platão começa o diálogo por discutir a questão da justiça,  do que é e do que não é justo, para identificar essa coisa da JUSTIÇA com o BEM. Justiça para Platão é, fazer o BEM. Mas como distinguir o bem do mal? O que é justo e o que é o injusto? Não seriam valores relativos, cada um defendendo o seu lado da moeda numa sociedade sempre competitiva? Como se parar a verdade da mentira? Como discernir o que é “real” e o que é "sombra"?
Baseados e nisso e sabendo pelos fofoqueiros da ágora da visceral antipatia de Platão pelos sofistas, – os sofistas atuais são aqueles que discursam e argumentam sobre qualquer assunto para ter sua razão, assim como os advogados,  -  acaba-se por reconhecer que os sofistas, em vez de corruptores do povo, são a própria imagem do cidadão comum. E hoje sabemos que tais sofistas se tornam, facilmente, políticos. Se é assim, então parece não haver esperança.  Mas ... talvez haja uma saída... através da educação! Lembremos da piadinha: ‘Você estudou? Não? E então será político!’
            Há que se  justificar a necessidade da educação na criação de um cidadão diferente desses que vemos todo dia, inclusive nós;  mas, será possível construir o propalado mundo melhor e mais justo ou será isso apenas jogo de palavras para que as pessoas continuem a pegar seus impostos? A República. O Sonho? Utopia? Palavras ao vento? Será que se passados mais de vinte e quatro séculos após a concepção platônica a obra continua viva? Será relevante para a vida contemporânea?
            Platão resume na alegoria da CAVERNA a humanidade ignorante,  prisioneira de sensações, do imediatismo e inconsciente da sua limitada perspectiva.  Os raros privilegiados que conseguem escapar das amarras da "caverna", através de uma longa e difícil caminhada intelectual  descobrem outras dimensões mais completas e reais - primeiro os objetos e a fogueira - e bem lá no fim, já fora da caverna, encontrarão a verdadeira realidade, a origem e a explicação de tudo o que existe.
            Maria Pereira, Maria, em  1976, interpreta assim a cena: - "Homens algemados de pernas e pescoços desde a infância, numa caverna, e voltados contra a abertura da mesma, por onde entra a luz de uma fogueira acesa no exterior, não conhecem da realidade senão as sombras das figuras que passam, projetadas na parede, e os ecos das suas vozes."
            Embora Platão nunca diga taxativamente que a fogueira está dentro da caverna, todo o diálogo assim o dá a entender. De resto não parece fazer muito sentido que uma fogueira acesa no exterior, já iluminado pelo sol, possa projetar luz sobrepondo-se à luz daquele.  A caverna é a metáfora para o mundo físico: lá dentro estamos nós, a fogueira também e os outros objetos. Platão não nega que haja alguma luz nas primeiras etapas da nossa "libertação", admite que podemos vislumbrar objetos reais à luz da fogueira. Mas para ele a verdadeira luz está no exterior, não é a luz vacilante da fogueira, - que obrigatoriamente foi construída por alguma mão também vacilante, - mas, sim  a luz fulgurante do sol: é a metáfora platônica para o mundo das idéias. Visão alegórica sobre  educação e  libertação, mas também, em última análise, uma revelação do potencial de dominação e opressão que a educação pode ter sobre o ser humano.
            Como os prisioneiros nem sequer podem ver o seu próprio corpo ou o das outras pessoas, inevitavelmente confundem as sombras e os ecos refletidos na parede à sua frente com a própria realidade; não conhecem outra. Que situação! Como é que alguém pode ser tão estúpido e parvo que se deixe enganar por sombras numa parede?  Platão responde a todo aquele que tiver o seu livro à mão e fizer citações e cátedras e púlpitos: - "Eles são como nós !"
            É a condição humana.  Nascemos em confortável escravatura de ignorância e é extremamente difícil, sem ajuda, tomar consciência dela e distinguir a realidade (a verdade) da ilusão. A vidinha ignorante que não se quer mudar.  
            O desejo de regresso à escravidão da ignorância, - esta resistência à mudança, diríamos hoje, - é tão forte, afirma Platão, que o prisioneiro tem mesmo de ser arrastado à força para fora da caverna e para a verdadeira realidade. Ele faz de tudo para se manter na caverna da religião, da política, das verdades sociais, das figuras de honestidades... É o porto seguro. Essa imagem se estende às artes quando se prefere o comercial e industrializado que não causará espécie a ninguém nem porá em questionamento os valores estéticos...
Uma vez fora da caverna a pessoa experimentará o deslumbramento; pouco a pouco ir-se-á habituando à luz; verá coisas à sua volta e  descobrirá a verdadeira realidade. Com o tempo até o próprio sol será objeto da sua atenção e compreensão.
Todos desejamos o conforto e a segurança de um mundo simples com poucos problemas, de solução fácil, compreensiva, universalmente aceite e aparentemente correta, como nesse "paraíso original" dos prisioneiros. Mas esta situação é ilusória e, se é paraíso, bem ... é o paraíso dos tolos!
            A condição humana é de auto-escravatura confundida com liberdade. As pensam que são livres; pensam que compreendem o mundo em que vivem. Os que observamos de fora vemos quão enganados estão, mas eles, para nosso espanto, agarram-se às suas amarras convencidos de que o que experimentam é a própria realidade. E posam de espertos.
            A educação é processo lento e doloroso, - e para isso é mister escolas consciente de seu papel. As pessoas são expostas à verdade. Não à verdade absoluta que esta não existe, mas à verdade imediata ou o que mais se aproxima do real palpável. Os prisioneiros, - as pessoas, -  tinham uma forma de olhar para o mundo; esta forma de ver a realidade fazia sentido dentro das paredes e da limitação. À medida em que são libertados e levados a ver o mundo fora da caverna, com mais luz e com outra luz, vão percebendo que esta forma, outrora desconhecida,  mostra outros caminho.
            Para Platão educação é liberdade. Primeiro: libertos da ignorância. Quem se liberta da ignorância ganha ampla visão e terá poder sobre o obtuso e ilimitado ser que não sai da caverna. O prisioneiro, quando inicialmente é libertado, fica confuso e quer regressar à sua condição anterior, mas já não pode. É arrancado dali à força e arrastado até à luz do sol.
            Quem teria interesse nisso? Quem seria capaz, por força, persuasão ou influência de levar outros para fora da caverna? Essa pessoa tinha de saber qual o caminho a seguir para os levar em direção à luz. Os filósofos pretendem fazer isso. Pelo menos querem ter a oportunidade de apontar caminhos ou mostrar que estes existem. Nunca um político. É a idéia renascente do messias, com tudo o que tem de bom (terá?) e de mau ! Todos os grandes iluminados têm em comum esse objetivo: querem educar o povo, levá-lo a ver a verdade, muitas vezes à sua verdade, à força se necessário. Até inventaram a educação obrigatória ! Nem os regimes democráticos são exceção.
            Os sistemas educacionais foram concebidos para que entremos na escola com o que sabemos e saiamos de lá com a verdade do mestre (ou do sistema)! Quem tem educação tem poder.  
            Platão insiste que educar não é "impingir" ciência. É a arte de motivar para aprender, - a arte desse desejo - , dar-lhe os meios para isso e ser companheiro de percurso. Não é transformar a carne em salsicha, mas é preparar a carne para se transformar em qualquer outra coisa... principalmente, naquilo em que ela puder se transformar.

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