imagem retirada de http://www.sempretops.com/dicas/ilusao-de-otica-de-terror/
Coelho De Moraes, refletindo sobre Vitor J. C. Cardoso – 1997
Escrita por Platão na sua fase da maturidade A
República – livro que transita pelas boas casas legislativas do Brasil mormente
em Mococa, SP,
que me parece ser livro de cabeceira de vereadores - é um dos
maiores dos seus diálogos, constituindo marco fundamental do pensamento
ocidental.
Platão começa o diálogo por discutir
a questão da justiça, do que é e do que não é justo, para identificar
essa coisa da JUSTIÇA com o BEM. Justiça
para Platão é, fazer o BEM.
Mas como distinguir o bem do mal? O que é justo e o que é o injusto? Não seriam
valores relativos, cada um defendendo o seu lado da moeda numa sociedade sempre
competitiva? Como se parar a verdade da mentira? Como discernir o que é “real” e
o que é "sombra"?
Baseados e nisso e sabendo pelos fofoqueiros da ágora da visceral
antipatia de Platão pelos sofistas, – os sofistas atuais são aqueles que
discursam e argumentam sobre qualquer assunto para ter sua razão, assim como os
advogados, - acaba-se por reconhecer que os sofistas, em
vez de corruptores do povo, são a própria imagem do cidadão comum. E hoje
sabemos que tais sofistas se tornam, facilmente, políticos. Se é assim, então
parece não haver esperança. Mas ...
talvez haja uma saída... através da educação! Lembremos da piadinha: ‘Você
estudou? Não? E então será político!’
Há que se justificar a necessidade da educação na
criação de um cidadão diferente desses que vemos todo dia, inclusive nós; mas, será possível construir o propalado
mundo melhor e mais justo ou será isso apenas jogo de palavras para que as
pessoas continuem a pegar seus impostos? A República. O Sonho? Utopia? Palavras
ao vento? Será que se passados mais de vinte e quatro séculos após a concepção
platônica a obra continua viva? Será relevante para a vida contemporânea?
Platão resume na alegoria da CAVERNA
a humanidade ignorante, prisioneira de sensações,
do imediatismo e inconsciente da sua limitada perspectiva. Os raros privilegiados que conseguem escapar
das amarras da "caverna", através de uma longa e difícil caminhada
intelectual descobrem outras dimensões
mais completas e reais - primeiro os objetos e a fogueira - e bem lá no fim, já
fora da caverna, encontrarão a verdadeira realidade, a origem e a explicação de
tudo o que existe.
Maria Pereira, Maria, em 1976, interpreta assim a cena: - "Homens
algemados de pernas e pescoços desde a infância, numa caverna, e voltados
contra a abertura da mesma, por onde entra a luz de uma fogueira acesa no
exterior, não conhecem da realidade senão as sombras das figuras que passam,
projetadas na parede, e os ecos das suas vozes."
Embora Platão nunca diga
taxativamente que a fogueira está dentro da caverna, todo o diálogo assim o dá
a entender. De resto não parece fazer muito sentido que uma fogueira acesa no
exterior, já iluminado pelo sol, possa projetar luz sobrepondo-se à luz
daquele. A caverna é a metáfora para o
mundo físico: lá dentro estamos nós, a fogueira também e os outros objetos. Platão
não nega que haja alguma luz nas primeiras etapas da nossa "libertação",
admite que podemos vislumbrar objetos reais à luz da fogueira. Mas para ele a
verdadeira luz está no exterior, não é a luz vacilante da fogueira, - que
obrigatoriamente foi construída por alguma mão também vacilante, - mas, sim a luz fulgurante do sol: é a metáfora platônica
para o mundo das idéias. Visão alegórica sobre educação
e libertação, mas também, em última
análise, uma revelação do potencial de dominação
e opressão que a educação pode ter sobre o ser humano.
Como os prisioneiros nem sequer
podem ver o seu próprio corpo ou o das outras pessoas, inevitavelmente confundem
as sombras e os ecos refletidos na parede à sua frente com a própria realidade;
não conhecem outra. Que situação! Como é que alguém pode ser tão estúpido e
parvo que se deixe enganar por sombras numa parede? Platão responde a todo aquele que tiver o seu
livro à mão e fizer citações e cátedras e púlpitos: - "Eles são como nós
!"
É a condição humana. Nascemos em confortável escravatura de
ignorância e é extremamente difícil, sem ajuda, tomar consciência dela e
distinguir a realidade (a verdade) da ilusão. A vidinha ignorante que não se quer
mudar.
O desejo de regresso à escravidão da
ignorância, - esta resistência à mudança, diríamos hoje, - é tão forte, afirma
Platão, que o prisioneiro tem mesmo de ser arrastado à força para fora da
caverna e para a verdadeira realidade. Ele faz de tudo para se manter na
caverna da religião, da política, das verdades sociais, das figuras de
honestidades... É o porto
seguro. Essa imagem se estende às artes quando se prefere o comercial e
industrializado que não causará espécie a ninguém nem porá em questionamento os
valores estéticos...
Uma vez fora da caverna a pessoa experimentará o deslumbramento; pouco
a pouco ir-se-á habituando à luz; verá coisas à sua volta e descobrirá a verdadeira realidade. Com o tempo
até o próprio sol será objeto da sua atenção e compreensão.
Todos desejamos o conforto e a segurança de um mundo simples com
poucos problemas, de solução fácil, compreensiva, universalmente aceite e
aparentemente correta, como nesse "paraíso original" dos
prisioneiros. Mas esta situação é ilusória e, se é paraíso, bem ... é o paraíso
dos tolos!
A condição humana é de
auto-escravatura confundida com liberdade. As pensam que são livres; pensam que
compreendem o mundo em
que vivem. Os que observamos de fora vemos quão enganados
estão, mas eles, para nosso espanto, agarram-se às suas amarras convencidos de
que o que experimentam é a própria realidade. E posam de espertos.
A educação é processo lento e
doloroso, - e para isso é mister escolas consciente de seu papel. As pessoas
são expostas à verdade. Não à verdade absoluta que esta não existe, mas à
verdade imediata ou o que mais se aproxima do real palpável. Os prisioneiros, -
as pessoas, - tinham uma forma de olhar
para o mundo; esta forma de ver a realidade fazia sentido dentro das paredes e
da limitação. À medida em que são libertados e levados a ver o mundo fora da
caverna, com mais luz e com outra
luz, vão percebendo que esta forma, outrora desconhecida, mostra outros caminho.
Para Platão educação é liberdade. Primeiro:
libertos da ignorância. Quem se liberta da ignorância ganha ampla visão e terá
poder sobre o obtuso e ilimitado ser que não sai da caverna. O prisioneiro, quando
inicialmente é libertado, fica confuso e quer regressar à sua condição
anterior, mas já não pode. É arrancado dali à força e arrastado até à luz do
sol.
Quem teria interesse nisso? Quem
seria capaz, por força, persuasão ou influência de levar outros para fora da
caverna? Essa pessoa tinha de saber
qual o caminho a seguir para os levar em direção à luz. Os filósofos pretendem
fazer isso. Pelo menos querem ter a oportunidade de apontar caminhos ou mostrar
que estes existem. Nunca um político. É a idéia renascente do messias, com tudo o que tem de bom
(terá?) e de mau ! Todos os grandes iluminados
têm em comum esse objetivo: querem educar o povo, levá-lo a ver a verdade, muitas
vezes à sua verdade, à força se necessário. Até inventaram a educação obrigatória ! Nem os regimes
democráticos são exceção.
Os sistemas educacionais foram concebidos
para que entremos na escola com o que sabemos e saiamos de lá com a verdade do
mestre (ou do sistema)! Quem tem educação tem poder.
Platão insiste que educar não é
"impingir" ciência. É a arte de motivar para aprender, - a arte desse desejo - , dar-lhe os
meios para isso e ser companheiro de percurso. Não é transformar a carne em
salsicha, mas é preparar a carne para se transformar em qualquer outra coisa...
principalmente, naquilo em que ela puder se transformar.

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