GUILDA ORKESTRAL ITERON, em longinquos 89/90 -
CONCERTO NO INGÁ, NICTHEROY
Coelho De
Moraes
No texto Considerações sobre o
ataque histérico, de 1909,
a definição de Freud da crise da histeria "como
fantasias traduzidas em linguagem motora, projetadas sobre a motilidade e
figuradas como pantomima", aponta para indicativos de teatro e drama e
ação cênica. Freud era bem informado dessas coisas e não foi por menos que o
complexo de Édipo adveio da peça grega.
Mesmo se a
histeria é referida a um teatro da representação inconsciente, a idéia da
representação não está ligada a uma representação mental mas a um teatro do
corpo. O drama está no corpo, aparentemente, pois é justamente ele que aparece
mais... em seguida vemos a expressão e a conjunção dos afetos. O corpo se move.
O corpo dramatiza e carrega a atriz/ator, o corpo representa o drama da mente. Representa um drama natural, uma experiência
real ou uma invenção baseada em outras experiências que já se viu?
Lembramos que
a palavra Histeros significa útero. Será a histeria uma experiência feminina de
todos os tempos para presentificar o corpo e seu desejo, num época em que a
mulher era de somenos e não podia estar em cena? E, o que podemos falar dos vários
anos de nulidade da mulher? mesmo no
teatro ela desaparecia por homens/atores que se travestiam para darem voz a
elas, parcela da comunidade grega que
não tinha voz alguma?
A experiência
plástica do gozo na histeria remeteria mais à dimensão da presentificação,
estar ali, estar presente, mostrar o corpo, ocupar espaço, ser reconhecida e
vista; em oposição a isso temos à da representação, onde se fala pelo outro,
mostra a figura do ausente, age ‘de acordo com’ mesmo não sendo ou sabendo como o outro funciona. O
outro é sempre o lado de onde eu sou visto. De mim é o Outro quem fala. E, em tudo
se pode ver a representação mas exemplificamos: na filosofia (representação mental consciente), ou mesmo na lingüística estrutural (representação
inconsciente).
Schneider diz
do fascínio pela razão estrutural. Priorizar
a linguagem nas formações do inconsciente. Reduzir à ordem da natureza e do
infra-humano, como a linguagem do sopro e do grito. Gritos primais. Gritos
tribais. Celebrações a Baco.
O psicanalítico
privilegia a interpretação da histeria como teatro da representação
inconsciente que foi recalcada. Atriz e ator serão recalcados ou
desrecalcadores? Cabe à atriz/ator buscar no seu subconsciente essas fontes e
expor... por assim dizer... histericamente. O homem não tem útero... como fará?
Será que a mulher, em seus princípios, mesmo tendo deusas e mães divinas em
ação, tenha sido expulsa das representações por ser a mais apta em terrenos de
histeria? Na experiência teatral podemos expor o consciente do recalcado, mediante estudos?
David-Ménard,
outro estudioso, formula a noção de atualidade da pulsão, reportando-se à
definição de Freud na carta 52
a Fliess que cito aqui: "Um ataque histérico não se constitui somente como uma descarga,
mas como uma ação – drama - que conserva
a característica inerente de toda ação: ser um modo de se obter prazer."
Subir ao palco,
exibir-se, mostrar-se, expor-se é uma conduta ligada ao desejo intelectual ou
se reporta à busca de prazer? Talvez não
como representação do desejo inconsciente e sim como atualização do erotismo
com o próprio corpo: atos masturbatórios através da palavra ou do teatro
físico; o histérico coloca o objeto do seu desejo como se ele estivesse lá. Fé
cênica. Nessa atualização, presentificação sem interpretação, aquilo que é como
é, coexiste a dimensão do movimento - da motricidade, do drama - e de um prazer
presentificado. O corpo presentificado no palco, e, a presentificação do prazer
no corpo. Para o conceito de DRAMA peço que leiam Junito Brandão.
Mas temos mais
questões: A histeria presentifica com o
corpo erógeno seu desejo? O corpo todo é
zona erógena. A crise histérica é apelo, uma cena endereçada ao Outro? A platéia
é o Outro que receberá a mensagem e a regurgitará em aplausos ou vaias? Poderá
a platéia agir a favor ou contra? A
platéia sentada em sua cadeira moderna tem permissão para agir ou será
simplesmente passiva/receptiva? O que muda nela, então?
Deleuze e
Guattari, no Anti-Édipo, tomaram linha
de fuga em relação ao corpo erógeno da histeria - privilegiando a formulação do
corpo sem órgãos de Artaud. Deleuze associa o corpo sem órgãos de Artaud ao
corpo da histeria que eu cito: "Há
muita aproximação ambígua na vida, do corpo sem órgãos, o álcool, a droga, a
esquizofrenia (...) mas a realidade viva deste corpo podemos nomeá-la de
histeria e em que sentido?" (DELEUZE, 1984, p.34).
Reportemos ao
quadro da histeria que se forma no século XIX: contraturas e paralisias,
hiperestesias, fenômenos de precipitação sempre alternantes e migrantes. O discurso
freudiano cartografa esse corpo máquina desejante. As experiências de Charcot se davam com mulheres
e sempre elas davam seus espetáculos teatrais de presentificação de corpo e de
prazer.
O sintoma
histérico tem a ver com afetos e não com organismos.
Atriz e ator
que estudam a matéria trabalham com seus afetos? Ou serão apenas mímicos de
formas e elasticidades pré-programadas nos ensaios? Será isso lícito? O improviso sobre o tema terá peso maior na
presentificação de corpos e afetos?

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