Elenco de DEUS, de Woody Allen, montado em Abril de 2001
Coelho De Moraes
No texto “Considerações sobre o ataque histérico”,
1909, Freud define histeria "como
fantasias traduzidas em linguagem motora, projetadas sobre a motilidade e
figuradas como pantomima". Farei uma ligação com as contumazes e fugazes REIVINDICAÇÕES
que vemos pulular no jornal a cada semana. Em que pese que hysteros é coisa de
mulher, pois útero é, vimos muitas carinhas masculinas sorridentes ilustrando
as REIVINDICAÇÕES, como querendo dizer, um tanto hesitante e lento: “Olha, gente,
quem REIVINDICA, sou eu, tá? Olha como trabalho pela minha cidade!!” Daí que REIVINDICAR, se mostra como ato a ser
homenageado. Conquistar a coisa é secundário. Mas, reivindicar... Uau(!), dura
um ano e após o primeiro natal tudo será esquecido.
O caso da histeria aponta para o fato
de que, mesmo se é referida a algum tipo de teatro, performance, representação
inconsciente, essa específica idéia de representação está ligada a resultados nulos, exceto à exposição na
mídia durante a semana. Uma e outra REIVINDICAÇÃO dá resultado – para que eu não seja chamado
de injusto - como temos exemplo de
vereador local que pediu e levou. Claro que não foi verba advinda através de
algum programa ou planejamento. Foi aquela verba de pires-na-mão. A conta vem
na próxima eleição. Mas, pediu e levou e isso basta para cidades provincianas.
Histeria e Pires me lembra de um certo “PIDONHO”, como ele mesmo se chamava,
cujo espectro rondava a prefeitura d’antanho. Um fantasma no estilo Canterville.
Será a histeria vindicatrix apenas uma experiência feminina de todos os
tempos para presentificar o corpo e seu desejo? A experiência plástica do gozo?
Por coisa alguma? Só para ver sua carinha sorridente dentro de um retângulo
pago no jornal? Abre parênteses: - Para os
menos avisados, quando um jornal publica uma matéria cercada por um fino risco
de contorno trata-se de matéria paga e, não furo de reportagem importante. Em geral é coisa desimportante paga pelo próprio
interessado sorridente. Fecha parênteses.
Esta histeria da REIVINDICAÇÃO estará ligada a uma depuração
do afeto pela linguagem? Não sei... estou perguntando. Schneider (1992) diz, citando Lacan: trata de priorizar a linguagem na ordem da
natureza e do infra-humano(...) como a linguagem do sopro e do grito. É até
poético. Podia ser dentifrício, também. No
entanto, o discurso psicanalítico acabou privilegiando a interpretação da
histeria como teatro da representação inconsciente recalcada. Assim, também vou
reivindicar. Vou na onda. Quero isso e quero aquilo. Quero desrecalcar. Acho
que vou mandar uma REIVINDICAÇÃO a meus deputados favoritos. Só... Nem, é
preciso que façam qualquer coisa... o legal é reivindicar... Se nada fizerem eu
tenho a desculpa: “Aaaaah! Mas eu reivindiquei”. Ego vindico. Mas há uma
interpretação latina para vindicar que significa punição ou vingança, na
verdade, requerer a justiça. Exigir a justiça. Domandar o que é justo. Io
domando.
Ouçamos David-Ménard: "Um ataque histérico não se constitui
somente como uma descarga, mas como uma ação que conserva a característica
inerente de toda ação: um modo de se obter prazer." Talvez a descarga de
prazer nos fundilhos, ao ver sua carinha no retângulo das Reivindicações, seja
suficiente para a semana. Pode ser. Um ato masturbatório em retângulo vindicador.
Pode ser. Quem sabe?
Subir ao púlpito – ou aparecer com a
carinha risonha no retângulo - exibir-se, mostrar-se, vitrinar-se, é uma
conduta ligada ao desejo intelectual ou se reporta à busca de prazer. Para
Ménard é atualização do erotismo com o próprio corpo: o histérico coloca o
objeto do seu desejo como se ele estivesse lá. Fé cênica. Dura Lex sed Lex / ou
fed Lex sed Lex / Durex. Gumex. Sed Ex. Esteja fora. Sai!
As experiências de Charcot era com
mulheres e elas davam seus espetáculos teatrais de presentificação de corpo e
de prazer. Mas nos retângulos vindicatórios o que vemos é a prevalência de
homens e agregados. Mudou, pois.
O sintoma histérico remete a uma
outra realidade do corpo: o cérebro paralisado não remete a uma lesão
funcional, sendo expressão de um valor afetivo que lhe é conferido.
Isso me deixa
preocupado. O Ipê Imperial em frente de casa começou a dar flores e são brancas?
Será que serei punido por contrariar a Tabebuia específica da cidade? Cara, nem
pensei nisso.
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