segunda-feira, 19 de setembro de 2011

EGO VINDICO


          
Elenco de DEUS, de Woody Allen, montado em Abril de 2001

Coelho De Moraes
 No texto “Considerações sobre o ataque histérico”, 1909, Freud define  histeria "como fantasias traduzidas em linguagem motora, projetadas sobre a motilidade e figuradas como pantomima". Farei uma ligação com as contumazes e fugazes REIVINDICAÇÕES que vemos pulular no jornal a cada semana. Em que pese que hysteros é coisa de mulher, pois útero é, vimos muitas carinhas masculinas sorridentes ilustrando as REIVINDICAÇÕES, como querendo dizer, um tanto hesitante e lento: “Olha, gente, quem REIVINDICA, sou eu, tá? Olha como trabalho pela minha cidade!!”  Daí que REIVINDICAR, se mostra como ato a ser homenageado. Conquistar a coisa é secundário. Mas, reivindicar... Uau(!), dura um ano e após o primeiro natal tudo será esquecido.
          O caso da histeria aponta para o fato de que, mesmo se é referida a algum tipo de  teatro, performance, representação inconsciente, essa específica idéia de representação está ligada  a resultados nulos, exceto à exposição na mídia durante a semana. Uma e outra REIVINDICAÇÃO  dá resultado – para que eu não seja chamado de injusto -  como temos exemplo de vereador local que pediu e levou. Claro que não foi verba advinda através de algum programa ou planejamento. Foi aquela verba de pires-na-mão. A conta vem na próxima eleição. Mas, pediu e levou e isso basta para cidades provincianas. Histeria e Pires me lembra de um certo “PIDONHO”, como ele mesmo se chamava, cujo espectro rondava a prefeitura d’antanho. Um fantasma no estilo Canterville.
          Será a histeria vindicatrix apenas uma experiência feminina de todos os tempos para presentificar o corpo e seu desejo? A experiência plástica do gozo? Por coisa alguma? Só para ver sua carinha sorridente dentro de um retângulo pago no jornal?                          Abre parênteses: - Para os menos avisados, quando um jornal publica uma matéria cercada por um fino risco de contorno trata-se de matéria paga e, não furo de reportagem importante.  Em geral é coisa desimportante paga pelo próprio interessado sorridente. Fecha parênteses.
              Esta histeria da REIVINDICAÇÃO estará ligada a uma depuração do afeto pela linguagem? Não sei... estou perguntando.  Schneider (1992) diz, citando Lacan:  trata de priorizar a linguagem na ordem da natureza e do infra-humano(...) como a linguagem do sopro e do grito. É até poético. Podia ser dentifrício, também.  No entanto, o discurso psicanalítico acabou privilegiando a interpretação da histeria como teatro da representação inconsciente recalcada. Assim, também vou reivindicar. Vou na onda. Quero isso e quero aquilo. Quero desrecalcar. Acho que vou mandar uma REIVINDICAÇÃO a meus deputados favoritos. Só... Nem, é preciso que façam qualquer coisa... o legal é reivindicar... Se nada fizerem eu tenho a desculpa: “Aaaaah! Mas eu reivindiquei”. Ego vindico. Mas há uma interpretação latina para vindicar que significa punição ou vingança, na verdade, requerer a justiça. Exigir a justiça. Domandar o que é justo. Io domando.
          Ouçamos David-Ménard:  "Um ataque histérico não se constitui somente como uma descarga, mas como uma ação que conserva a característica inerente de toda ação: um modo de se obter prazer." Talvez a descarga de prazer nos fundilhos, ao ver sua carinha no retângulo das Reivindicações, seja suficiente para a semana. Pode ser. Um ato masturbatório em retângulo vindicador. Pode ser. Quem sabe?
           Subir ao púlpito – ou aparecer com a carinha risonha no retângulo - exibir-se, mostrar-se, vitrinar-se, é uma conduta ligada ao desejo intelectual ou se reporta à busca de prazer. Para Ménard é atualização do erotismo com o próprio corpo: o histérico coloca o objeto do seu desejo como se ele estivesse lá. Fé cênica. Dura Lex sed Lex / ou fed Lex sed Lex / Durex. Gumex. Sed Ex. Esteja fora. Sai!
          As experiências de Charcot era com mulheres e elas davam seus espetáculos teatrais de presentificação de corpo e de prazer. Mas nos retângulos vindicatórios o que vemos é a prevalência de homens e agregados. Mudou, pois.
          O sintoma histérico remete a uma outra realidade do corpo: o cérebro paralisado não remete a uma lesão funcional, sendo expressão de um valor afetivo que lhe é conferido.
           Isso me deixa preocupado. O Ipê Imperial em frente de casa começou a dar flores e são brancas? Será que serei punido por contrariar a Tabebuia específica da cidade? Cara, nem pensei nisso.

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