Foi... dias 1 e 2 de setembro na cidade de Arceburgo por ocasião dos
100 anos de emancipação administrativa, comemorados com musica e teatro
Coelho
De Moraes
O
espírito livre é arrojado: enfrentará a possibilidade de naufrágio de sua
fantasia, mas é de fantasia que falamos e de apresentação dessa fantasia sobre
palco, endereçada para muita gente que assiste e corre o risco de bater palmas
– TEATRO. O ensaio de cada peça, de cada rotina, de cada cena ou detalhe retoma o ócio infantil e o entusiasmo pela
repetição que leva ao caminho da perfeição, - nunca alcançada. Condição de
espelho o Teatro é o reflexo da platéia que se olha, havendo mudanças e
alteridades. Como o poeta efebo que goza a influência do mestre, mesmo que este
lhe passe a mão várias vezes com o mesmo gozo – sinais de bênçãos? - até
encontrar a liberdade de sua letra e de sua obra e de seu expressar, e viver a angústia final cuja influência é a
de não poder não escrever: transforma-se em autor singular. O ensaio termina
quando encontra o fim, a exaustão, quando é abandonado, pois se estanca para não
prosseguir no que está dizendo, sendo esta a hora de uma alteridade anônima
verificar sua demonstração. O fim do dia não é fim de ensaio. Mas apenas parte
do fim. O fim do ensaio é quando traz a exaustão intelectual, ou emocional, ou
espiritual. Momento raro. A exaustão física não traz nada. Traz a cama, talvez.
O
ensaio reflete, não contenta, não classifica. O ator, o dramaturgo, o
encenador, a atriz, possuem inteligência desviada: deliram e inventam coisas
onde nada há. Pura subjeção. É a ficção que lhes serve de sangue, de linfa, de suor,
de adrenalina, buscando o domínio da
invenção, da criatividade diante do já feito, já visto, e também do nunca
tentado. Uma espécie de beira do abismo. Reúne, portanto, o ser humano de fatos da ciência com o ser humano aéreo da poesia. O deus da tecnologia, sei lá
quem é, com Orfeo e sua lira. Aceitam o
terror da proibição de dizer além do já dito (ADORNO, 1965). O ensaio possui
uma autonomia estética, - para quem consegue lapidá-lo, - e desconfia do modelo canônico e positivista
de conteúdo. A máxima que surge é aquela de se ouvir que não importa a história
mas o modo como ela foi contada. Vale a voz da atriz e do ator. Valem seus
movimentos e seus corpos ocupando espaços impensados. A história será
secundária. Às vezes tem que ter história pois o aprendiz de ator não acha que
faz teatro de usar uma roupa grega, por exemplo. A consistência não brota da retirada do
sujeito dramaturgo da equação, de sua supressão em favor da quimérica
neutralidade literária; a consistência brota de sua inclusão e revela um autor na
opacidade, ilustrando as cenas como
espírito criador à distância, na pior das hipóteses; ou, na melhor das
hipóteses, um autor cuja clareza é cortesia de gênio.
Para
quem participa ativamente dos ensaios, autônomo na estética, não existe imposição
da forma tradicional, mas somente aquela do espírito poético literário
dogmático e obstinado. Como na literatura de Proust, traz-se à tona a
sensibilidade do escritor/dramaturgo que vai além da arte e é capaz de enunciar
conhecimentos profundos e sólidos sobre o ser humano e sua posição no universo.
Pensemos
com Freud: o escritor/dramaturgo, sua sensibilidade, possui a coragem de deixar
falar o inconsciente (a obra de arte é uma confissão do autor/dramaturgo, exposição
de alma, explosão de espírito); capacidade de perceber pulsões ocultas no
espírito das coisas e das pessoas outras que lhe são reflexo.
Os escritores/dramaturgos desejam proporcionar
prazer estético e intelectual através de efeitos emocionais. Não podem
re-produzir a matéria da realidade sem modificá-la. É necessária a transcrição,
a adaptação, a alteração de sentidos quando se trata de peça que tem 500, 200,
10 anos de idade. Tudo deve mudar. O texto não pode ser intocado. Não pode
haver direito autoral sobre coisa inspirada na realidade de terceiros. A ficção é audaciosa: mas a renúncia ao
princípio do prazer (Freud cita sobre a ciência como sua mais radical representante) é relativizada na
forma do ensaio, da repetição :- toda
ficção deverá ser corrigida pelo diálogo com a alteridade. E alteridade é
princípio de realidade. O outro é o dono do direito autoral e não quem retirou
dali as letras do texto.
Em
provisória análise, o ensaio deve romper com a tradição de impor percurso de
aquisição de conhecimentos. Atrizes e atores não podem temer desafios, pois
desafios é o que mais há nessa profissão. Atriz e ator buscam a complexidade de
um autor/dramaturgo, de um tema. O
ensaio não tolera o engodo de que para entender o complexo é preciso primeiro
cortejar o simples. O ensaio é como a
vida: sempre inconclusivo para o seu autor/dramaturgo/encenador, pois no dia da
morte, no dia da estréia, apenas os que ficarem poderão falar do que restou,
enquanto o autor/dramaturgo/encenador jamais poderá extrair aprendizagem da
vivência radical e derradeira que é galardão de atrizes e atores.
Enquanto
se vive, se pode ensaiar. Mas, o espetáculo é, também, uma forma de ensaio e não haverá outra chance para cada
ato, cada cena - o autor é ator de um drama singular, inadiável e
intransferível que lhe compete na escrita e na criação das ligações perigosas.
É
amarrar a alma numa âncora, deixar longa corrente, e lançá-la no palco.
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