segunda-feira, 7 de novembro de 2011

MODA E FIGURINO EM CALDAS


Chamada de PROCURANDO LUCAS, treiler

Coelho De Moraes

Dario Caldas afirma que os estilistas são antenas aguçadas, mas logo de antemão, sou obrigado a ser contrário a essa idéia. Artistas são antenas, nem sei se aguçadas. Estilistas antenam seu próprio mundo e a estrutura industrial que comporta:  há estilismos enquanto houver capital.  Afirmo, também,  que, antes de antenar,  estilistas forjam  desejos, mudanças e perspectiva que nunca existiram. Basta ler DAS KAPITAL onde o pensamento marxista explica a ação do fetichismo e da produção do desnecessário (feitiço) que mesmeriza o consumidor até esgotá-lo. O consumidor é a vítima elogiada.
Lidam com a estética: é inequívoco, bem como os publicitários e os pastores evangélicos, preocupados com sutilezas mas fundamentados no sensível (carnevale) do ser humano... longe do ideal platônico. Trabalham com elementos do quotidiano e em resumo ou redução da moda: a  indumentária exteriorizará idéias e atitudes apenas sob observação ultra/romântica manipulada pela mídia. Jeans é fardamento de trabalhador de estrada de ferro. Em manipulação virou atitude juvenil de liberdade. Na China todos usavam a mesma roupa na Revolução Industrial. E o mundo Ocidental reclamava.  No ocidente todos usam a mesma roupa na Dominação Cultural: o Jeans e é IN.  Moda? Atitude? Imposição? Bucha de canhão?
 A roupa que nos cobre, nos cobre para evitar o frio, a nudez (que hoje é ilegal); a maioria dos escritos de camisetas (as palavras de ordem e emblemas) são incompreensíveis a seres humanos por usarem idioma alienígena. Ostentam, os consumidores,  aquilo que o dinheiro lhes permite comprar, muita vez, arremedo do original que aparece na TV; roupa emblemática forma o exército de seguidores do ícone ‘artístico’ recém construído.
Como juntar esse tema de figurinismo e moda com a fragmentação. O próprio segmentar do curso é um reflexo da fragmentação. Mas vejamos os exemplos:
Giacomo Balla – movimento, gestual, velocidade, fragmentação da luz, das imagens pintadas; destruir a imagem sem torná-la completamente abstrata, mas, sabidamente longe de seu natural. As formas, a luz (que sugere dinamismo) e o cromatismo (outra faceta do movimento). Desenhista, contatou impressionistas e neo-impressionistas (fragmentadores contumazes). Assinou o Manifesto Técnico da Pintura Futurista. Depois retornou ao realismo,  escultura e cenografia.
Recurso para representar o dinamismo: simultaneidade, desintegração, repetição.
Idéia:  o observador deve captar, de uma só vez, as sequências do movimento.
Madeleine Vionnet -  Estilista, usava modelos em bonecas, depois  para a escala humana. Corte e drapeado. Muito mais pano para esculpir a roupa. Acabou com o uso do espartilho. Vionnet utilizava tecidos incomuns para a época e lugar. O estilo se tornou atemporal. Mas importa relevar que rompe com o modo de fazer roupa do século 19 e propõe nova linguagem e essa é sua maior contribuição. Romper é fragmentar.
Alceu Penna, mineiro, da arquitetura às Belas Artes. Desenhista, técnica para construir com os fragmentos de rabiscos; rápido, traço ágil, desenhava menus, cartazes, cenários, figurinos, decorações e fantasias, detalhava texturas e tramas dos tecidos.  Ilustrou livros, principalmente, infantis.  Nas revistas abordava temas mundanos, políticos, cinematográficos, esportivos. Foi referência: Referência da moda a ser copiada; difundia modelos em voga, - o que demonstra que a publicidade e o jornalismo ditam a pauta sob a ordem pagante. Jabaculês. Vejo pauta  que promova venda, seja ela qual for.   Referência de sugestões (mesmerismo, sugestão, atitude e atividade subliminar tentando alcançar os fragmentos da mente que se constrói e ali montar uma ‘verdade’, um ‘objeto de desejo’). Frases e atitudes como os bordões dos comediantes de TV, criando modismos forçados,  sem qualquer raiz popular, parecendo ser do povo.
Seria, Alceu Penna, perceptível sem a mídia? Quantos Alceus há por ai já sem mídia?
Christian Lacroix, estilista, década de 80, século xx. Simplicidade e  minimalismo. Cores vivas, estampas vibrantes, bordados elaborados, misturas de tecidos, silhuetas volumosas trouxeram fôlego à indústria da moda, - e é interessante notar o viés obrigatório entre essas Casas e a indústria que comanda. A indústria construirá realidades inexistentes, não naturais, modus viviendi obrigatório. Para atingir o público de classe não abastada surge o resumo plug and play da moda:  o Prète-a-Porter. Moda para homem e mulher. Perfume. E tome euro.
Uma exposição da obra de Lacroix quer demonstrar que o figurinismo e arte têm o mesmo sabor. Mas isso me parece vender Picasso às dúzias copiados na gráfica da esquina. Ou seja, usando toda a vertente de mídia e de trabalho de alta mídia para que a indústria pudesse auferir os dividendos dos investimentos aplicados. Não fosse assim por que fazer essas roupas se Van Gogh, notório fragmentador... bem deixa para lá... deixemos o irmão a comprar seu único quadro e voltemos à indústria.
Luxo, fantasia, audácia são palavras heróicas. Representam mesmo a obra de Lacroix ou serão palavras que dinamizam a venda?
O mundo é fragmentado. Aquilo que nos parece inteiro é formado de pedaços. E de pedaços construímos os relativamente inteiros. Em qualquer vertente de arte ou indústria.

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