Chamada de PROCURANDO LUCAS, treiler
Coelho
De Moraes
Dario
Caldas afirma que os estilistas são antenas aguçadas, mas logo de antemão, sou
obrigado a ser contrário a essa idéia. Artistas são antenas, nem sei se
aguçadas. Estilistas antenam seu próprio mundo e a estrutura industrial que comporta:
há estilismos enquanto houver capital. Afirmo, também, que, antes de antenar, estilistas forjam desejos, mudanças e perspectiva que nunca
existiram. Basta ler DAS KAPITAL onde o pensamento marxista explica a ação do
fetichismo e da produção do desnecessário (feitiço) que mesmeriza o consumidor
até esgotá-lo. O consumidor é a vítima elogiada.
Lidam
com a estética: é inequívoco, bem como os publicitários e os pastores
evangélicos, preocupados com sutilezas mas fundamentados no sensível (carnevale)
do ser humano... longe do ideal platônico. Trabalham com elementos do
quotidiano e em resumo ou redução da moda: a
indumentária exteriorizará idéias e atitudes apenas sob observação
ultra/romântica manipulada pela mídia. Jeans é fardamento de trabalhador de
estrada de ferro. Em manipulação virou atitude juvenil de liberdade. Na China
todos usavam a mesma roupa na Revolução Industrial. E o mundo Ocidental
reclamava. No ocidente todos usam a
mesma roupa na Dominação Cultural: o Jeans e é IN. Moda? Atitude? Imposição? Bucha de canhão?
A roupa que nos cobre, nos cobre para evitar o
frio, a nudez (que hoje é ilegal); a maioria dos escritos de camisetas (as
palavras de ordem e emblemas) são incompreensíveis a seres humanos por usarem
idioma alienígena. Ostentam, os consumidores, aquilo que o dinheiro lhes permite comprar,
muita vez, arremedo do original que aparece na TV; roupa emblemática forma o exército
de seguidores do ícone ‘artístico’ recém construído.
Como juntar esse tema
de figurinismo e moda com a fragmentação. O próprio segmentar do curso é um
reflexo da fragmentação. Mas vejamos os exemplos:
Giacomo
Balla – movimento, gestual, velocidade, fragmentação da
luz, das imagens pintadas; destruir a imagem sem torná-la completamente
abstrata, mas, sabidamente longe de seu natural. As formas, a luz (que sugere
dinamismo) e o cromatismo (outra faceta do movimento). Desenhista, contatou impressionistas
e neo-impressionistas (fragmentadores contumazes). Assinou o Manifesto Técnico
da Pintura Futurista. Depois retornou ao realismo, escultura e cenografia.
Recurso para
representar o dinamismo: simultaneidade, desintegração, repetição.
Idéia: o observador deve captar, de uma só vez, as
sequências do movimento.
Madeleine
Vionnet - Estilista, usava modelos em bonecas,
depois para a escala humana. Corte e
drapeado. Muito mais pano para esculpir a roupa. Acabou com o uso do
espartilho. Vionnet utilizava tecidos incomuns para a época e lugar. O estilo se
tornou atemporal. Mas importa relevar que rompe com o modo de fazer roupa do
século 19 e propõe nova linguagem e essa é sua maior contribuição. Romper é
fragmentar.
Alceu Penna, mineiro, da arquitetura às
Belas Artes. Desenhista, técnica para construir com os fragmentos de rabiscos; rápido,
traço ágil, desenhava menus, cartazes, cenários, figurinos, decorações e
fantasias, detalhava texturas e tramas dos tecidos. Ilustrou livros, principalmente, infantis. Nas revistas abordava temas mundanos,
políticos, cinematográficos, esportivos. Foi referência: Referência da moda a
ser copiada; difundia modelos em voga, - o que demonstra que a publicidade e o
jornalismo ditam a pauta sob a ordem pagante. Jabaculês. Vejo pauta que promova venda, seja ela qual for. Referência
de sugestões (mesmerismo, sugestão, atitude e atividade subliminar tentando
alcançar os fragmentos da mente que se constrói e ali montar uma ‘verdade’, um
‘objeto de desejo’). Frases e atitudes como os bordões dos comediantes de TV, criando
modismos forçados, sem qualquer raiz
popular, parecendo ser do povo.
Seria,
Alceu Penna, perceptível sem a mídia? Quantos Alceus há por ai já sem mídia?
Christian
Lacroix, estilista, década de 80, século xx. Simplicidade e minimalismo. Cores vivas, estampas vibrantes,
bordados elaborados, misturas de tecidos, silhuetas volumosas trouxeram fôlego
à indústria da moda, - e é interessante notar o viés obrigatório entre essas
Casas e a indústria que comanda. A indústria construirá realidades inexistentes,
não naturais, modus viviendi obrigatório. Para atingir o público de classe não abastada
surge o resumo plug and play da moda: o
Prète-a-Porter. Moda para homem e mulher. Perfume. E tome euro.
Uma exposição da obra de Lacroix
quer demonstrar que o figurinismo e arte têm o mesmo sabor. Mas isso me parece
vender Picasso às dúzias copiados na gráfica da esquina. Ou
seja, usando toda a vertente de mídia e de trabalho de alta mídia para que a
indústria pudesse auferir os dividendos dos investimentos aplicados. Não fosse
assim por que fazer essas roupas se Van Gogh, notório fragmentador... bem deixa
para lá... deixemos o irmão a comprar seu único quadro e voltemos à indústria.
Luxo,
fantasia, audácia são palavras heróicas. Representam mesmo a obra de Lacroix ou
serão palavras que dinamizam a venda?
O
mundo é fragmentado. Aquilo que nos parece inteiro é formado de pedaços. E de
pedaços construímos os relativamente inteiros. Em qualquer vertente de arte ou
indústria.

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