TPM EM 2001 ENCENANDO DEUS DE WOODY ALLEN
Coelho de Moraes
O CÃO ANDALUZ, de Buñuel, é marco da
cinematografia, finca pilares e aponta possibilidades na arte. Obra de 1928.
Antes disso, em 20, DAS CABINET, de Wiene mostrava experimentalismos radicais.
Vemos nos dois as marcas da psicanálise, do onírico, da poética expostos na
película.
Tensão – O olho cortado, Cesare saindo
do armário, formigas que brotam da mão da personagem, o mago misterioso na
feira apresentam tensão, obedecendo porém a valores diferentes. Alguns deles já
eram tradição na literatura romântica. DAS CABINET carrega a historia de maneira
direta e linear comprometendo-se a ‘começar, ter meio e finalizar’, mesmo que o
final seja surpreendente. O CÃO, por outro lado, mostra tensão na cena em si e
por si, pois a edição de cenas com episódios estranhos, diferentes, e oriundos
do inconsciente não se preocupam com a história cabível ao modo SydFeldiano de
contar historias em hollywood.
Realismo – DAS CABINET é obra de clara
inspiração expressionista e os mestres alemães pontificavam na retomada da arte
cinematográfica como instrumento de estímulo da fantasia, além da normal ‘contação’
de histórias. Pessoalmente não conheço um filme alemão que se assemelhe ao CÃO
em termos de simbologia, de sinais críticos, e liberdade de expressão. A
história de DAS CABINET é imagem de uma realidade sombria que rola na cabeça
dos pacientes do asilo onde todas as personagens vivem e interagem. Nada mais
pé no chão do que a doença que remete a ao mundano viver; resolve-se no final.
No CÃO ANDALUZ ancora-se a realidade na existência do casal que dá linha à pipa
de Buñuel, além do fato de que as locações são naturais em ruas e espaços
tradicionais.
Experimentalismo – A história do DAS
CABINET é projetada sobre cenários alterados que nos remete à distorção da
consciência dos pacientes do asilo. Dessa forma tais cenários são realistas
para os pacientes mas foram criados pelo autor com intuito de mostrar a sua
visão do que seria a mente alterada. Empírico. Wiene propôs: temos a visão normal
ou ortodoxa do mundo e aquela visão, em cenários fora de prumo, seriam
características das mentes que saem do campo da normalidade. Hoje nos
acostumamos com qualquer distorção. Naquela época de entre-guerras, com poderio
militar à sua porta, batalhas em potencial, Jung palpitando sobre a síndrome de
Odin, a tensão estava, literalmente, no ar. Como Franco ainda não estava no
poder podemos aquilatar que Buñuel e seu louco amigo de Cadaqués, o Salvador,
criaram sem limites obedecendo as regras (ops) do manifesto surrealista.
Naturalismo – A tela grande, sucedâneo
de útero e noite sonhadora, envolve o espectador; vira janela para o
inconsciente; caminho que o cinema buscou e obteve, o escuro é sinal de
‘interior da mente’ e se conjuga com o fato de que as imagens podem gerar o
fado, investindo assim no campo dos sonhos; além disso
tem o poder coletivo de manifestação e auto/sugestão que pauta Jung no caso do
inconsciente das massas. O caminho estava aberto para o inconsciente por força
freudiana; o cinema saia do documentarismo
de Lumière para ganhar repercussão real ou metafórica em função daquilo tudo
que já ia nas artes plásticas, no teatro e na música, em termos de captação da
realidade imediata.
Em João Luiz o projeto
cinematográfico uniu entretenimento e
indústria. O cinema, tão complexo e
múltiplo, pode muito bem ser comercial e apresentar técnica refinada. Pode, através
de pequenos signos e poucos segundos, mudar a leitura da historia, como é bem
exemplo ‘Blade Runner’ e o origami do unicórnio que prova, em 40 segundos na
segunda versão, que o policial Deckard é replicante também. Um objeto real
remetendo ao onírico.
Buñuel e Wiene, em suas obras, não
estariam lançando cartas ao futuro como Villa fez em suas obras musicais. Os
novos códigos esclareceriam o teor das cartas? Ou seriam experimentações em si,
ali terminadas para testar uma ideia e partir para outra? As duas obras seriam mais acessíveis se
estivessem em cores com interpretação via Actor Studios e distribuição Miramax?
Acredito que reler Buñuel seria
inventar outra obra. Releitura de DAS CABINET se fazem às dúzias. Mas em
qualquer das produções há alguma ideologia. Vemos em Buñuel a ideologia de que
tudo é livre e possível. Sonhe e será. Nada deve ser submetido à forma ou regra.
Nada deve ser dependente de controle e, o autor tem que se munir da liberdade
de critica e liberdade de expressão, apesar dos dogmas.
Em DAS CABINET vemos que aquilo tudo
que se mostra livre é violento, descontrolado, e deve ser punido. Cesare e seu
amor é doentio. No entanto, no final, o sonho e as distorções, voltamos à
realidade medíocre, não passavam de
delírios de loucos. Só mesmo os loucos (artistas e criadores?) podem querer a
liberdade e o aleatório. E se reserva ao comum controlador punir quem sair dos
trilhos.
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