segunda-feira, 7 de novembro de 2011

CALIGARI E SEU CÃO ANDALUZ


TPM EM 2001 ENCENANDO DEUS DE WOODY ALLEN

Coelho de Moraes

O CÃO ANDALUZ, de Buñuel, é marco da cinematografia, finca pilares e aponta possibilidades na arte. Obra de 1928. Antes disso, em 20, DAS CABINET, de Wiene mostrava experimentalismos radicais. Vemos nos dois as marcas da psicanálise, do onírico, da poética expostos na película.
Tensão – O olho cortado, Cesare saindo do armário, formigas que brotam da mão da personagem, o mago misterioso na feira apresentam tensão, obedecendo porém a valores diferentes. Alguns deles já eram tradição na literatura romântica.  DAS CABINET carrega a historia de maneira direta e linear comprometendo-se a ‘começar, ter meio e finalizar’, mesmo que o final seja surpreendente. O CÃO, por outro lado, mostra tensão na cena em si e por si, pois a edição de cenas com episódios estranhos, diferentes, e oriundos do inconsciente não se preocupam com a história cabível ao modo SydFeldiano de contar historias em hollywood.
Realismo – DAS CABINET é obra de clara inspiração expressionista e os mestres alemães pontificavam na retomada da arte cinematográfica como instrumento de estímulo da fantasia, além da normal ‘contação’ de histórias. Pessoalmente não conheço um filme alemão que se assemelhe ao CÃO em termos de simbologia, de sinais críticos, e liberdade de expressão. A história de DAS CABINET é imagem de uma realidade sombria que rola na cabeça dos pacientes do asilo onde todas as personagens vivem e interagem. Nada mais pé no chão do que a doença que remete a ao mundano viver; resolve-se no final. No CÃO ANDALUZ ancora-se a realidade na existência do casal que dá linha à pipa de Buñuel, além do fato de que as locações são naturais em ruas e espaços tradicionais.
Experimentalismo – A história do DAS CABINET é projetada sobre cenários alterados que nos remete à distorção da consciência dos pacientes do asilo. Dessa forma tais cenários são realistas para os pacientes mas foram criados pelo autor com intuito de mostrar a sua visão do que seria a mente alterada.  Empírico. Wiene propôs: temos a visão normal ou ortodoxa do mundo e aquela visão, em cenários fora de prumo, seriam características das mentes que saem do campo da normalidade. Hoje nos acostumamos com qualquer distorção. Naquela época de entre-guerras, com poderio militar à sua porta, batalhas em potencial, Jung palpitando sobre a síndrome de Odin, a tensão estava, literalmente, no ar. Como Franco ainda não estava no poder podemos aquilatar que Buñuel e seu louco amigo de Cadaqués, o Salvador, criaram sem limites obedecendo as regras (ops) do manifesto surrealista.
Naturalismo – A tela grande, sucedâneo de útero e noite sonhadora, envolve o espectador; vira janela para o inconsciente; caminho que o cinema buscou e obteve, o escuro é sinal de ‘interior da mente’ e se conjuga com o fato de que as imagens podem gerar o fado, investindo assim no campo dos sonhos;   além disso tem o poder coletivo de manifestação e auto/sugestão que pauta Jung no caso do inconsciente das massas. O caminho estava aberto para o inconsciente por força freudiana;  o cinema saia do documentarismo de Lumière para ganhar repercussão real ou metafórica em função daquilo tudo que já ia nas artes plásticas, no teatro e na música, em termos de captação da realidade imediata.
Em João Luiz o projeto cinematográfico  uniu entretenimento e indústria.  O cinema, tão complexo e múltiplo, pode muito bem ser comercial e apresentar técnica refinada. Pode, através de pequenos signos e poucos segundos, mudar a leitura da historia, como é bem exemplo ‘Blade Runner’ e o origami do unicórnio que prova, em 40 segundos na segunda versão, que o policial Deckard é replicante também. Um objeto real remetendo ao onírico.
Buñuel e Wiene, em suas obras, não estariam lançando cartas ao futuro como Villa fez em suas obras musicais. Os novos códigos esclareceriam o teor das cartas? Ou seriam experimentações em si, ali terminadas para testar uma ideia e partir para outra?  As duas obras seriam mais acessíveis se estivessem em cores com interpretação via Actor Studios e distribuição Miramax?
Acredito que reler Buñuel seria inventar outra obra. Releitura de DAS CABINET se fazem às dúzias. Mas em qualquer das produções há alguma  ideologia. Vemos em Buñuel a ideologia de que tudo é livre e possível. Sonhe e será. Nada deve ser submetido à forma ou regra. Nada deve ser dependente de controle e, o autor tem que se munir da liberdade de critica e liberdade de expressão, apesar dos dogmas.
Em DAS CABINET vemos que aquilo tudo que se mostra livre é violento, descontrolado, e deve ser punido. Cesare e seu amor é doentio. No entanto, no final, o sonho e as distorções, voltamos à realidade medíocre,  não passavam de delírios de loucos. Só mesmo os loucos (artistas e criadores?) podem querer a liberdade e o aleatório. E se reserva ao comum controlador punir quem sair dos trilhos.

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