chamada para o 'caso do 3 pimenta' com Tiago Pereira e Claudinei Costa
Coelho De Moraes
Primeiro lá se vão os valores da crença. Depois acredito que a
civilização já se foi criada por acidente, num longo processo, e é, hoje, mundo
artificial, em relação aos caminhos que natureza tomaria por si só. Daí que a
fantasia humana de representar, re-apresentar, nada mais do que a cópia dos
constantes DeVir. O teatro deve durar para sempre pois é reflexo do constante
mudar da natureza. Sempre com a interveniência humana. Essa formação livre a
partir de algum acidente ou acaso é que levou a civilização a ser o que é. O
ser humano toma dessas informações e rearticula tudo no palco, na musica, na
arquitetura, nas artes.
Mas estamos, como já disse, num constante DeVir. A mutação articulada pelo
fazer humano causa novas mudanças e tudo parece organizado em mudanças
constantes. Porém surge o engano da manutenção do estado. Há reações, - os
reacionários percebem que seu mundo mudou e não querem nada disso... agem pois as mudanças são sempre
diferenciáveis e causam problemas.
É isso o que nos faz individualizar. O reacionário é bandido, age
em bando, é o adolescente da gangue, o reacionário é infantil, pueril. O que
nos faz crescer, desenvolver e depois cair. Há processo nesse movimento. E ele
se repete com todo mundo.
Contudo, a criação humana, dentro da civilização que lhe é prisão,
visa tentar explicar o que deu errado nos primórdios quando os deuses eram
nosso primos diretor e moravam ali na esquina. Dizem que houve época em que os
deuses andavam conosco pela terra. O que é que deu errado? Somos muito chatos? O mal estar imperante na civilização advém da
constatação do tédio que causamos aos deuses? Outros dizem que os deuses nunca
existiram. Nenhum deles e que não passam das máscaras com as quais o artista
sobe ao palco. As formas artísticas são buscas desta correção. O produzir,
criar e moldar são reflexos da imagem de um deus inexistente que um dia
criamos.
Acredito que a catarse, ou o "caimento
da ficha" Aristotélico pode até rolar numa platéia e dali a única coisa a
ser produzida será a modificação daquela pessoa ou sua conduta dai em diante. Servirá o
teatro para isso? É atividade educadora? Alarmista? Instigadora?
Para o artista no entanto, se este produz
dentro fórmulas e rótulos não haverá catarse. Quando o novo advém, será novo até para o criador, este tem que se
emocionar com isso, sendo novo será inexplicável e será assombroso também para
quem cria.
Alguns assuntos são sempre repetidos. Sobre essa coisa de sentir, por exemplo. Tirando o fato de que sentimos o tempo todo
pois somos matéria, e é ela quem sente,
tudo tem que passar pela estética (esthesis sensibilidade do corpo). Manuel
de Barro é poeta mas não fala de coisas das emoções como valores maiores. Para
ele o que vale é a praticidade do objeto ou da funcionalidade da coisa. Para
ele muito menos poesia é falar de rosa e muito mais é falar de alicate e
borracha. Terá o teatro e o texto dramatúrgico caminho similar? Terá mele que
nos dar constantes lições de moral ou também será ninho de disparidades e
questionamentos coletivos? Será vitrine?
Penso também que nada criamos, apenas
reciclamos as proposições e fazemos múltiplas releituras, daí as repetições de
pensamentos, palavras e obras. Nada há de original em ‘fusions’, por exemplo,
pois é pratica que se executa há milênios: misturar tendências, mas em graus
pequenos ou quantidade conta gotas.
Muita vez a eclosão da iluminação já se
deu em algum lugar há muito tempo mas o iluminado não tem acesso a mídias e
passou despercebido. É uma questão lugar e oportunidade.
Acredito que criar sob os efeitos da civilização que já havíamos
criado, ou pelo menos, participado da criação, da construção, mesmo sem
saber... é chover no molhado ou no mínimo rever o que lá já está. É copiar o
que já existe. Todo o aspecto da cultura é aspecto do campo artificial. A
realidade é artificial. Nem tenho muita certeza de que somos seres conscientes
pensantes ou apenas jogamos com os dados que nos foram dados. Quando pisamos o
palco elaboramos trejeitos e mímicas. O mimo é a copia da aparência e não da
profundidade: Stanislavisky pode ser deixado de lado?
O mundo das idéias e a questão do demiurgo, na minha pobre
concepção, são apenas substitutos dos deuses do Olimpo, já por si rarefeitos.
Uma espécie de recriação da mesma idéia com roupagem acessível ao governante
que é apedeuta. Prefiro a proposta de que não há tal mundo de idéias nem
há modelo perfeito a ser seguido, mesmo por que tal pensamento foi capturado
pelas hordas cristãs e transformado em céu e em inferno.
Fico com a proposta de Michel Onfray e da realidade como modelo
único e a busca da perfeição um modo de superar a realidade. A cada peça uma
proposta. Na mesma peça a mudança da proposta a cada dia.
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