Cena penumbrosa de A LIÇÃO (montagem de 2004)
Sergio Spina, Priscila Vieira e Claudinei Costa
COELHO DE MORAES
Áte é um termo grego antigo e quando falamos de Grécia, - Hélade, na verdade - nos vem à memória o Teatro e suas manifestações em comedia, tragédia: dramas constantes do quotidiano helênico.
Áte está presente em Homero, ou na coleção de compiladores que seguiram o aedo, ou ainda na coleção de pessoas que recebeu esse nome de Homero; Áte é, em geral designado como conduta imprudente e inexplicável, dando a parecer que o herói ou protagonista não sabe o que faz e o faz na louca quando pula do abismo ou se joga nas águas mortais dos oceanos terríveis, para a outro salvar, por exemplo... sem qualquer referência explícita à intervenção divina é atitude humana; espécie de loucura ou obscurecimento do estado normal(?) da consciência que permite não pensar duas vezes ou deixar que os instintos mais profundos determinem a conduta. Ícaro foge do labirinto com asas de cera e se aproxima do sol sabendo que as asas derreterão.
Parando... (como se diz: ‘Vamos parar e conversar já ninguém é peripatético’)... parando para colocar a cabeça em ordem vemos o ator ou atriz sobre o palco no momento da sua arte. Áte com Areté e temos a virtude da tragédia na arte teatral e na multiplicação da tragédia.
No entanto, Áte é quase sempre traduzida por desgraça, ruína, ou simplesmente tragédia no mau sentido; é termo recorrente nos textos trágicos, lembrando que se dá tragédia quando o herói se vê frente ao inexorável sem poder fugir de seu destino e, mesmo sabendo que o fim se aproxima, ainda assim, não foge do que tem que fazer ou sofrer.
Tomemos Lacan, agora, e quando falamos de atriz e ator devemos falar de psicanálise. Ou pelo menos devemos falar de inconsciente e suas urdiduras. Não que atriz e ator sejam loucos. Longe disso, e, muito pelo contrário. Atrizes e atores são aqueles surgem envergando várias personalidades diferentes ainda permanecendo com a sua própria; a pessoa da rua, ao contrário assume muitas e nunca sabe qual é a sua, mostrando uma diferente a cada situação. Atrizes e atores se prepararam para envergar a nova personalidade. As gentes da rua são obrigadas, sem qualquer preparação a responder a cada situação numa personalidade diferente.
A atriz e o ator vestem a personalidade. Nas gentes da rua a personalidade invade a pessoa.
Usemos outra tradução para Áte: "É palavra insubstituível. Ela designa o limite que a vida humana não poderia transpor. Talvez seja este o campo de ação do herói. Não se é herói impunentemente; nem todo mundo nasceu para isso. Todos nasceram para serem punidos mas nem todos são heróis. Uma vez transposto tal limite, - e esse é um movimento que se impõe à personagem –, sobrevém o caráter, a um só tempo, enigmático e desumano. Desumano no sentido de não civilizado, de cru. Se os humanos são os civilizados então a Natureza é desumana e viver segundo ela é nojento.
Nesse contexto o teatro se faz Política e ação prática na polis. Enquanto no palco se desenvolve a dramaturgia que apresenta-se desprovida de qualquer referência que assegure orientação entre o bem e o mal, temos, em paralelo, o caos bem orientado pela ordem (cosmos advindo do caos?), da justiça munida de razão política, que não sustenta por muito tempo o discernimento do seu próprio gesto. Agindo na peça o ator sofre a tragédia de saber que pode morrer naquele papel, pois as forças sociais, que se arbitram detentoras da lei suprema, o pressionarão de alguma forma, mas atriz e ou ator agirão assim mesmo. Há uma oportunidade de se safar, a lâmina está pendente e mesmo assim a vítima cospe no carrasco. A peça durará duas horas. A sociedade pode ter sido afrontada. Muita gente vai assistir a peça pelo entretenimento, mas não percebe que foi plantado o ovo da serpente.
Lembremos de Antígona. Ela não está aí para demandar coisa alguma, nem lutar ou mesmo argumentar em favor de nada. Coloca-se, de saída, como morta entre os vivos, para quem o fim já está consumado, como algo necessário e definitivo. E nisso consiste a sua lição para a posteridade. Tragédia. A atriz que a representa faz renascer o problema a cada dia desde 2500 anos atrás. Resistência. Teatro. Por mais bobinho que seja sempre será alguém na pele do Outro. E o Outro é sempre estranho. Ou nos identificamos ou o combateremos.
Entre atrizes e atores e gentes de teatro a questão da morte comporta desdobramentos na discussão sobre tragédia. Tomemos a passagem da obra de Sade em que fala da existência da MORTE-EM-VIDA e advoga contra a naturalidade do crime. A morte da atriz e dos atores, em favor da personagem, constituem o signo capaz de distingui-los do mero animal; tal é o gesto sagrado e dionisíaco que será capaz de humanizá-los e eternizá-los na memória da platéia. Esta MORTE-EM-VIDA é o que se trata de evitar no dia a dia das pessoas, mas é o que mais se exercita, - a morte do simbólico. É preciso consentir na própria morte.
Há a pulsão de morte e a influência de certa filosofia que propaga os limites do ser como SER-PARA-A-MORTE (Heidegger). SER-PARA-A-MORTE é o que é próprio para atores e atrizes, na ocultação de si no palco. Sob máscaras. É a barreira que se impõe à ordem simbólica; a solução trágica, de enfatizar um ponto que não admite qualquer conciliação.
Atrizes e atores são tomados como expressão autêntica de postura conseqüente, que mantém estreito vínculo entre o desejo e a morte: representação do puro desejo de morte. Lacan novamente.
Será isso impasse? A vertente trágica do desejo? A vertente trágica passível de receber outro tratamento através de investigação acerca da comédia?
Da comédia poderá brotar o passe para a vida? A PULSÃO-DE-VIDA?
Mas, esse já é outro tema.
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